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Serralves mostra lado oculto de Miró

Exposição com 31 obras, oriundas de várias fundações estrangeiras, muitas delas não apresentadas ao público há quatro décadas, revela facetas menos conhecidas do mestre catalão

Na aparência do singular de um nome está contido todo um mundo feito de pluralidades. Esse é o feito maior de Joan Miró, o pintor quase impossível de catalogar. As diferentes retrospetivas que lhe têm sido dedicadas são como que uma declaração de muitos princípios, onde cabe o Miró fauvista, cubista, surrealista, minimalista, detalhista e o mais que se queira imaginar. Por isso, quando o Museu de Serralves abre agora uma pequena exposição intitulada “Joan Miró e a morte da pintura”, na verdade não é apenas mais uma mostra de uma pequena parcela da obra do catalão. A proposta do curador Robert Lubar Messeri é antes de mais uma janela aberta para o contacto com obras raramente vistas, através das quais se constrói todo um outro discurso.

Constituída por onze obras da coleção do Estado português em depósito em Serralves, e vinte e duas peças oriundas das Fundações Joan Miró (Barcelona), Mapfre e Pilar i Joan Miró (Palma de Maiorca), bem como da Collection Adrien Maeght (Saint-Paul-de-Vence), a mostra abarca sobretudo a produção do mestre catalão durante o ano de 1973.

A data é importante porque no ano seguinte, entre 13 de maio e 13 de outubro de 1974, Miró tem no Grand Palais, em Paris, uma grande e marcante retrospetiva para a qual fez uma exigência: teria de ser composta, no essencial, por trabalhos recentes. Depois disso, o homem que, em rigor, nem é abstrato, nem figurativo, as últimas importantes exposições nas quais ocupa um lugar de relevo acontecem no Centro Pompidou, Paris, em 2002, com “La Révolution Surrealiste” e “Joan Miró 1917-1934. La naissance du monde” (2004). Em outubro deste ano voltou a ter uma grande retrospetiva no Grand Palais, intitulada “Joan Miró 1893-1983”.

Em Serralves está um outro Miró. Aquele que trabalha intensamente para a retrospetiva de 1974 e que, além de pintor, mais uma vez se afirma como escultor, com uma poética marcada por um diferenciado trabalho da cor e de múltiplas texturas. Há uma evidente procura de uma terceira dimensão nas grandes tapeçarias espalhadas pelas diferentes salas da Casa de Serralves.

Como diz o curador Robert Messeri, “não é uma exposição inovadora”, mas é, ainda assim, uma mostra cheia de questionamentos, elaborados numa fase de grande debate crítico sobre os caminhos possíveis da pintura.

Tinta acrílica sobre tela queimada195 x 130 cm, 1973Col. Estado Português, em depósito na Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto

Tinta acrílica sobre tela queimada195 x 130 cm, 1973Col. Estado Português, em depósito na Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto

Desse ponto de vista, o título escolhido para Serralves não é inocente. Miró debatia-se com a necessidade de renovar recursos, percursos, abordagens, num tempo em que, com todos os caminhos traçados a partir de propostas como a “land art”, arte processual, performance e instalação, do que se falava, afinal, era de uma hipotética morte da pintura.

Miró colocava-se do outro lado. Agarrava-se quase em desespero, com alguma raiva, até, como nota o curador, à hipótese de, sem deixar de ser quem era, prosseguir com uma obra integrável numa outra “persona”. Sempre atento às mudanças na arte contemporânea, na retrospetiva de 1974, como o revela o documentário em exibição em Serralves, Miró tenta explorar os limites.

Há por ali raiva, alguma violência, um desapego às formas estabelecidas, conseguido através de um intenso e surpreendente diálogo entre diversos meios e materiais.

Não deixa de ser relevante que toda aquela obra tenha sido construída numa altura em que Miró era já octogenário. De alguma forma subsidiária da grande retrospetiva do Grand Palais de 1974, a atual mostra de Serralves inclui duas das cinco “Toiles bülées”, telas queimadas produzidas entre 4 e 31 de dezembro de 1973 exibidas em Paris. Uma delas faz oparte da coleção do Estado português. Há telas perfuradas, relevos tecidos elaborados em colaboração com Josep Royo.

Este é, assegura o curador Robert Messeri, “um Miró que tem estado escondido do público”.

Aí está a oportunidade, até 3 de março, e com apoio mecenático da Sonae, de conhecer um outro lado da obra de um artista que passará a ter uma posição de relevo na programação de Serralves. Ana Pinho, presidente do Conselho de Administração da Fundação, sublinhou a importância das obras que serão feitas na casa, a cargo de Álvaro Siza, para que seja possível, em diferentes momentos, encontrar novas abordagens e novas possibilidades de diálogo de e com a obra de Joan Miró.

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