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A memória da arquitetura no Museu de Arte Popular

“Físicas do Património Português” questiona as práticas de uma arquitetura em Portugal muito marcada pelo patrimonialismo, mesmo quando parte de inspirações modernistas

O Museu de arte Popular, em Lisboa, recebe a partir de terça-feira a exposição “Físicas do Património. Arquitetura e Memória”, muito centrada na construção de oportunidades para uma reflexão consistente e atualizada sobre o que têm sido as intervenções contemporâneas no património edificado. Um diversificado conjunto de iniciativas, que incluirá, para lá do percurso expositivo, debates, apresentação de projetos, ou projeções de filmes, tentará que sejam retiradas conclusões sobre o modo como aquelas intervenções se refletem na identidade e na memória construídas.

Jorge Figueira, curador da mostra realizada por iniciativa da Direção Geral do Património Cultural, escreve, no catálogo a editar, que a iniciativa surge “num momento de euforia e de crescentes dúvidas, geralmente não verbalizadas”. O objetivo, prossegue, “é celebrar bons exemplos, refletir sobre a história que nos trouxe até aqui, cruzar o tema com debates contemporâneos”.

Nesse sentido serão apresentados doze projetos recentes, seis lugares identitários e dois lugares em transformação. Foram ouvidas cinco personalidades relevantes para a discussão do tema e será todo um século e meio a ser colocado em cronologia.

Figueira serve-se dos estados da física para organizar a exposição. Ao sair do que considera a “tecnicidade que envolve o debate patrimonial”, apresenta a matéria em três estados físicos. “Líquido: a adequação natural

da arquitetura ao património, sem perda considerável de volume; Sólido: lugares que resistem à deformação, movendo-se ligeiramente; Gasoso: lugares em movimentos aproximadamente aleatórios”.

De “Líquido” (horizontal) fazem parte doze projetos, exibidos em maquete, fotografias, desenhos e texto. A naturalidade com que a arquitetura entra no património e os arquitetos dialogam com os seus antecessores, revela Jorge Figueira, “é proposta como uma especificidade. O modo escorreito, fluente, orgânico, das intervenções, é representado pelo estado líquido”. Neste módulo são apresentados trabalhos de: João Luís Carrilho da Graça, Adalberto Dias, Manuel Graça Dias/Egas José Vieira, Gonçalo Byrne/João Pedro Falcão de Campos, Gonçalo Byrne/Patrícia Barbas/Diogo Seixas Lopes, João Mendes Ribeiro, António Belém Lima, João Carlos dos Santos, Alexandre Alves Costa/Sergio Fernandez, Paulo Providência, Álvaro Siza/Eduardo Souto de Moura, Nuno Brandão Costa.

“Sólido” (vertical) é composto por seis maquetas em madeira maciça, por Alvaro Negrello, que representam seis lugares identitários do património português, como o Forte da Ínsua (Caminha), Alta de Coimbra, Torre das Águias (Mora), Evoramonte, Cabo Espichel, e Sagres.

Por fim, em “Gasoso” (circular) são apresentados em duas estruturas circulares, à maneira dos panoramas do século XIX, uma reportagem fotográfica sobre dois lugares em mutação: a Baixa de Lisboa e a Baixa do Porto, por Nuno Cera e Inês d’Orey.

Físicas do Património Português” tem a particularidade de, após a conclusão do longo processo de reabilitação do Museu de Arte Popular, permitir, pela primeira vez, o acesso do público à totalidade das pinturas murais que decoram as suas várias salas. O destaque natural vai para a exuberância das que têm a autoria de Estrela Faria, na Sala da Estremadura e Alentejo, pela circunstância de ter sido recentemente restaurada, no contexto de preparação desta exposição

Uma exposição para permitir a reflexão sobre inrtervenções contemporâneas

Uma exposição para permitir a reflexão sobre inrtervenções contemporâneas

Para Jorge Figueira, “a prática da arquitetura em Portugal está intimamente ligada ao património. Este será, aliás, um dos fatores constitutivos de uma “arquitetura portuguesa”.

Assim, “até quando trata de obra nova, a arquitetura portuguesa é reabilitadora, eventualmente até patrimonialista. As rochas onde se implantam a Casa de Chá da Boa Nova ou a Piscina das Marés, em Leça, são amorosamente entendidas como património — ou preexistências para utilizar a expressão civil”.

Deste modo, acrescenta, “a arquitetura é produzida com essa memória projetada, como uma metafísica patrimonial, cujo apogeu é a Exposição do Mundo Português em 1940. Essa metafísica sofre um corte abrupto com o 25 de Abril, mas a memória não. Na intervenção no Chiado, Álvaro Siza, o mais moderno dos arquitetos portugueses — e um “conservador” —, entende o incêndio como uma oportunidade para restaurar o projeto pombalino”.

A exposição “Físicas do Património Português. Arquitetura e Memória” propõe-se lidar com esta problemática, tanto mais que, recorda Jorge Figueira, “a intervenção patrimonial marca o percurso de alguns dos mais celebrados arquitetos portugueses contemporâneos. Não se compreende a obra de Fernando Távora sem Santa Marinha da Costa, Siza sem o Chiado, Eduardo Souto de Moura sem o Bouro, João Luís Carrilho da Graça sem a Flor da Rosa. Ou o percurso de Gonçalo Byrne sem as numerosas, por vezes polémicas, intervenções, com carga e coautoria paisagística. Ou a diferença de Manuel Graça Dias e Egas José Vieira nas deambulações gráficas, texturais, sensoriais, que introduzem nos espaços interiores”.

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