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Vida Extra

Boucherie Mendes tem um novo livro sobre televisão. E pode começar a lê-lo aqui

"Ainda Bem Que Ficou Desse Lado – Como ser um melhor espectador de televisão na era das séries, da Netflix e da escolha infinita" (Escritório Editora), de Pedro Boucherie Mendes, chega às livrarias na próxima semana. Leia aqui, em primeira mão, um excerto

Nunca dá nada de jeito

Antes deste livro acontecer e durante alguns anos, falei por alto com alguns editores sobre uma obra mais ou menos como esta e todos torceram o nariz à ideia de publicar um livro acerca de televisão, porque acreditavam que não teria interessados. Em Portugal publicam-se os livros mais incríveis, mas desde que não sejam sobre televisão está tudo bem. Em quase todos esses encontros, e afastado o assunto do livro, a conversa ficava no tema da televisão, com os próprios editores a manifestarem-se admirados e surpreendidos com algumas coisas que eu partilhava com eles sobre esse mundo. Se no seu modo sério e compenetrado queriam distância da televisão, já descontraídos falávamos de televisão como se lembrássemos umas férias maravilhosas, trocando opiniões sobre programas, discutindo séries e formatos, perdendo noção do tempo e de por que estávamos ali. As pessoas, editores de livros incluídos, viram e ainda veem imensa televisão, adoram os programas de que gostam e quem trabalha em televisão sabe-o perfeitamente. Mas a verdade é que naquele plano de seriedade que mantemos e queremos que exista nas nossas vidas, gostar e discutir televisão enquanto qualquer coisa com uma profunda influência na comunidade e em cada um de nós não parece interessar. E nem precisaria de ser uma discussão sobre gostos e outras subjetividades (supostamente) mais fúteis. Por exemplo, podíamos falar de como a televisão foi sendo decisiva na aceitação, normalização e legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, para dar um exemplo ao mesmo tempo moderno e progressista.

Ou de como melhorou drasticamente a segurança nas praias, porque afinal de contas Baywatch (Marés Vivas), exibida em 130 países, foi uma das séries com mais público em todo o mundo nos anos 90.

Quem não adora não gostar?

Quantos grandes e reputados romances conhecemos que se passam no meio da televisão? Que grande escritor usaria a televisão como contexto? Ou que escritor mediano? Porque há dezenas de livros passados no mundo da ópera, do teatro e provavelmente ainda mais no mundo do cinema, com referências, alusões, citações, personagens e complexidades próprias das artes. Ao invés, nos romances que li e que passam pela televisão há sempre frivolidade, falta de seriedade, personalidades sem espessura nem moral e a redenção só se torna possível quando essas figuras fogem à televisão e decidem escrever um livro a denunciá-la ou se dedicam ao voluntariado num país distante. Em (bons) filmes como Quiz Show (1994), Truman Show (1998), Slumdog Millionaire (2008), ou italiano Reality (2012), produtores de programas de televisão surgem como vilões, e em Tomorrow Never Dies (1997), James Bond enfrenta um vilão, barão dos media, que pretende usar a televisão para conquistar o mundo. Não deve haver reflexão sobre o estado terminal, decadente ou podre da nossa sociedade e da nossa realidade, seja do barbeiro, seja do intelectual, que não inclua a televisão como causa dos males maiores.

Vistas bem as coisas, a televisão não serve para nada a não ser ajudar a passar o tempo no consultório do dentista, onde estaremos por causa do outro culpado da decadência, o açúcar. A televisão pertence ao outro lado, escorraçou Trump para o nosso colo, impede-nos de conviver com a família e amigos, não nos deixa ler os clássicos e ainda nos manipula, ilude e alimenta de falsidades, banalidades e futilidades, como se não tivéssemos problemas que cheguem. Nos nossos sempre fascinantes mecanismos de ilusão de nos situarmos do lado certo da vida, a televisão fica do lado errado. Como há os “condutores de domingo” ou “os empregados de restaurante que demoram muito tempo a atender”, também há “a televisão”, por oposição ao “bom dia de praia” ao “bom livro” ou ao “bom filme no cinema”.

A televisão é péssima, repetitiva, sensacionalista, sempre a mesma coisa e a realidade Netflix – séries excelentes que podemos ver quando quisermos, sem publicidade e sem ter de esperar uma semana por um novo episódio – é o contrastante que faltava. (…)

Gostamos de detestar a televisão. Ao contrário dos jornais, dos livros, do cinema, do teatro, das exposições, viagens, restaurantes japoneses e montanhas-russas, cuja reputação se mantém salvaguardada por cada má experiência não afetar a experiência geral, na televisão sucede o oposto. Cada gafe, cada erro em televisão implica uma onda de generalização sobre o quão péssimo sempre foi e sempre será o meio. Não há nenhum livro de autoajuda que não aconselhe desligar a televisão, levantar-se do sofá e ir fazer qualquer coisa diferente em nome da felicidade. Como ler um livro ou ver um filme ou ir a uma exposição. É tanto assim que as pessoas que não têm televisor são alvo frequente de reportagens (algumas das quais em televisão), onde se lhes aponta uma qualquer superioridade e transcendência.

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Vida nova igualzinha no futuro

Até à televisão privada, que chegaria a Portugal em 1992, o espectador português tinha uma existência pacata com dois canais.

A televisão era o único trampolim a partir do qual falávamos dos outros assuntos, política, cultura, desporto, o que fosse. Não havia obviamente vídeos no telemóvel, excertos ou posts no Facebook com aquele momento polémico de que toda a gente fala no dia seguinte. Ou tínhamos visto na televisão ou estávamos fora da conversação. De 1992 em diante, já com quatro canais, víamos telejornais muito mais dinâmicos, programas informativos modernos e mais agressivos, mais séries e programas diferentes. A concorrência era férrea e por vezes exaltada. (…) Muito do Portugal dos anos 90 e da entrada no século XXI é marcado por uma espécie de querela entre os intelectuais e o domínio da SIC, primeiro, e da TVI, depois, uma questão cujas consequências valeria a pena explorar, também para entender como um país se modernizou muito mais depressa quando passou a ter muito mais escolha na sua televisão.

No caminho para a viragem do século, e depois das privadas terem sido autorizadas por legislação, a televisão apanhava a boleia do desenvolvimento tecnológico e por toda a Europa se aumentava a escolha com a disseminação de ofertas de canais por subscrição (aquilo a que vulgarmente se chama “Cabo”).

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Subjacente ao debate público sobre a televisão entre políticos, comentadores, artistas e intelectuais, havia a forte convicção de que a televisão de má qualidade poderia contaminar as pessoas, em especial as crianças, sendo curioso verificar que hoje em dia, com a oferta aumentada exponencialmente, esse debate tenha desaparecido. Alguém mais cínico poderá ser levado a pensar que esses políticos, comentadores, artistas e intelectuais se queixavam da qualidade da televisão quando não tinham canais de Cabo e Netflix para se distraírem e assim deixarem de se preocupar com a saúde mental dos seus concidadãos.

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Tenho para mim que toda a nossa vida é marcada pela televisão, em especial se tivermos menos de 50 anos, de um modo que temos dificuldade em conceber, quanto mais admitir. Não andarei longe de acertar se disser que será a ligação mais forte que manteremos nas nossas vidas, porque quer venhamos a morrer aos 80, 90 ou 100 é muito provável que haja uma televisão (ou um ecrã) por perto, com um conteúdo qualquer, gravado ou em direto.

Ver televisão é simples, fácil, confortável e agradável, tudo o que a nossa culpabilidade sempre vigilante adora. A televisão não tem culpa de ser televisão, nós é que pelos vistos temos alguma inclinação para tornar a nossa vida complicada e deve ser por isso que as pessoas dizem com orgulho que “já não veem televisão”, como se anunciassem que deixaram de comer gorduras ou de beber álcool e passaram a fazer exercício. Por algum motivo, as pessoas acham-se melhores pessoas quando se libertam da televisão, ou pelo menos que os outros as vão achar melhores pessoas.

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A televisão é muita coisa ao mesmo tempo – uma atividade económica muito relevante, uma indústria, um poder, uma responsabilidade social – com iguais partes de profissionalismo, exigência, método, jogo de egos, contingência, sorte e momento. Quando falamos de televisão e nos divertimos a desdenhá-la, convém nunca esquecer que muito da segunda metade do século XX e agora do século XXI chegou-nos através da televisão. Talvez as redes sociais venham a ocupar esse lugar de condutor e indutor da realidade, mas para já isso pouco importa. Ainda que a televisão esteja a mudar muito depressa nesta segunda metade da segunda década do século XXI, muitos dos seus prolegómenos são os mesmos, pelo que, acredito, haverá nela alguma coisa para todos, até para os que acham que a televisão morreu.

Agora: a televisão vive no presente

Qual é a principal característica que procuramos num móvel IKEA? Passada a chatice da compra, de carregar e rasgar a embalagem, do decifrar das instruções, da montagem, o que é que mais queremos? Talvez que fique bem montado, que sirva o seu propósito, mas primeiro tem de se equivaler ao móvel cuja fotografia está no catálogo, livre de impurezas, novinho em folha, mesmo que seja igual à cómoda que havia naquele turismo de habitação onde estivemos no ano passado. O nosso é novo e é o que importa.

Um programa de televisão contemporâneo – ou seja, do momento em que está a ler estas linhas, seja isso quando for – tem de se parecer com um programa de televisão contemporâneo ou então parecer melhor, ou seja, ainda mais novo. Quem vai ao IKEA, vê um conjunto de objetos que têm em comum serem novos e o nosso radar da novidade notará de imediato se houver algo danificado ou antigo no meio daquela escolha. Nos programas de televisão é igual. Nos horários mais importantes dos canais principais têm de ser de agora e muitos até são em direto, feitos no momento para serem o mais de agora possível.

Vendo televisão antiga, viajamos no tempo e rimos com penteados e roupas de outrora, mas cheira sempre a usado. Como um móvel IKEA, a televisão envelhece depressa e mal, mas o seu presente tem de ser perfeito. Ao fim de dez segundos, os programas antigos parecem isso mesmo: antigos. Por antigos quero dizer baços, com cores e brilhos estranhos, algum grão na imagem, som que parece vir de dentro de uma caixa, atores que parecem estar a fingir, planos de câmaras estranhos, efeitos sonoros muito marcados. Aos nossos olhos, são pobres vítimas do avanço tecnológico que torna os programas de agora sempre melhores. Ao contrário de certos objetos ou tendências, de certa música ou certo cinema, da literatura, da arte, da arquitetura, infelizmente para eles os programas de televisão não voltam a estar na moda. Pode haver novas versões de programas clássicos e dos quais temos saudade, mas só por breves momentos de nostalgia (ou por não haver mais nada para ver) alguma vez daremos por nós a preferir a televisão antiga à televisão de agora.

Há uma boa razão para na Televisão ser tudo em grande

Assim de chofre: nas séries, as casas são grandes porque é preciso meter as câmaras em algum lado e para isso elas têm de lá caber. Ou seja, na ficção televisiva as casas têm de ser maiores do que os rendimentos dos personagens indiciam porque as câmaras têm de ter espaço para operar e porque atrás dessas câmaras está um operador e atrás desse operador até pode estar um assistente. No cinema, como há mais tempo e mais dinheiro, as soluções de captação de imagem podem ser mais criativas e complexas e haver mais verosimilhança, mas em televisão, porque os programas se fazem muitas vezes rápida e sucessivamente, é preciso espaço e convencionou-se que se dane a adequação entre local onde vivem os personagens e os seus empregos e poder de compra.

As casas da televisão (ou melhor, a cenografia) têm de ter dimensão suficiente para que os técnicos trabalhem na sombra dos personagens. São casas inverosímeis, mas é a vida da televisão. Além disso, são espaços onde decorre ação. Os personagens têm de poder receber pessoas, conversar com elas, namorar, caminhar, falar ao telefone, pensar enquanto andam de um lado para o outro, com os operadores de câmara a seu lado. Para isso é preciso espaço. Também por necessidades técnicas, não dá para fazer televisão em qualquer lado da mesma maneira ou com a mesma eficácia. Não se faz automaticamente um bom programa num salão de festas dos bombeiros, nem num castelo recuperado. É preciso cuidar que há meios técnicos que permitirão simular a naturalidade da televisão (que é das maiores artificialidades que pode haver). Não basta apon-tar a câmara e carregar no botão. São necessários muitos milhares em equipamento sofisticado e bastantes profissionais treinados para que a televisão se pareça com televisão.

Para piorar as coisas no reino da verosimilhança, existem os mecanismos e os processos de identificação com os personagens e os processos de caracterização. O jovem casal que namora junto à lareira precisa de ter uma casa com lareira. O advogado solitário precisa ter um escape que pode ser uma coleção de discos de vinil com milhares de cópias, uma sala para os guardar e um sistema de som à altura. A médica que trabalha dia e noite tem, mesmo assim, o seu magnífico carro lustroso e sempre pronto.

As casas na televisão não têm humidade nem temperatura. Nunca está calor, nem frio, toda a gente anda por lá à vontade. Também nunca estão sujas ou demasiado desarrumadas. Personagens de séries dão cabo de casamentos e relações por trabalharem 25 horas por dia, mas têm (espantosamente) apartamentos arrumados e muito bem decorados, onde até há reposteiros a condizer com as almofadas no sofá. Muitas vezes até aquele apartamento mínimo que o personagem empregado de restaurante aluga em Nova Iorque nos parece bastante razoável, quanto mais o apartamento para onde se mudou a dupla de recém-casados. Tudo parece grande, bem cuidado e decorado e caro, porque é esse o nível médio no habitante do planeta da televisão. Se no cinema há tempo para se ser vago e ambíguo, num episódio em televisão é preciso transmitir imediatamente o que se pretende. Não se perde tempo com um personagem a desesperar em busca de uma mesinha para aquele canto da sala que parece despido, a não ser que os argumentistas necessitem que esse personagem se cruze com o amor na loja de mobiliário.

Finalmente, naquele que podemos chamar de modo normal em televisão, os personagens vivem em condições melhores do que a média, conduzem carros melhores do que a sua situação indicaria, vestem-se com roupas que lhes assentam na perfeição, com cores e tons condicentes, porque os carros velhos, as casas mal mobiladas e decoradas e a roupa usada ou estragada têm de se guardar para servirem de marcadores para personagens que estejam a atravessar um mau bocado, que sejam pobres, solitários ou simplesmente bichos-do-mato.

Em contraponto, os milionários televisivos têm quase todos direito a piscina e a motorista.

Nas telenovelas, fala um de cada vez e todos comem o pequeno-almoço à mesa

Televisão é palavra dita de forma clara. Concentrem-se nesta ideia. Não é poesia, não é ambiguidade, não é literatura, não é conversa, não declamação, nem é berraria ou murmúrio. As palavras são encadeadas, formam frases curtas e que fazem sentido. Ninguém na vida real fala como na televisão, obviamente: os personagens e as pessoas da televisão têm uma fantástica capacidade de síntese e de expor ideias de forma clara, sem pausas, bengalas, trejeitos, palavrões, vícios ou gírias (porque essas palavras fazem parte de um guião que alguém escreveu). Na televisão, fala um de cada vez. Os outros escutam. Sobretudo em ficção, ninguém se atropela ou muda de assunto inesperadamente. As ideias começam-se e concluem-se. Se são interrompidas é porque houve bom motivo, como alguém apontar uma pistola ou tocar à porta. Na televisão, em conversa entre vários amigos ou familiares, todos conseguem exprimir o que têm para dizer e todos têm a atenção garantida. Na televisão não há aquela amiga que nunca abre a boca ou aqueles amigos que nunca conseguem acabar a frase porque há um outro amigo, dominante, que não deixa falar ninguém. Se há, é por algum motivo e não apenas porque sim. Nada podia soar mais a falso, mas é assim. O espectador é senhor, soberano e rei e merece ser tratado com o máximo respeito e para que não faça uso da sua arma de destruição maciça (o comando com o qual muda de canal) tem de perceber com clareza quem diz o quê, porque a sua atenção está sempre a um instante de se concentrar noutra coisa qualquer, como outro canal.

Quando as “falas” não são escritas e são proferidas em direto, como por exemplo por concorrentes de reality shows, cabe ao apresentador do programa conduzir, oxigenar e lubrificar a conversa, nem que para isso tenha de dizer expressamente ao concorrente que é isto ou aquilo que ele quer dizer. Quando o assunto deixa de interessar ou enrola, corta-se-lhe o pio. O espectador tolera mal a ambiguidade sem objetivo ou a palha que percebe não irá dar a lado nenhum e é por isso que importante ter um bom apresentador num reality show.

Na ficção televisiva a ação é construída, elaborada e continuada através dos diálogos entre os personagens. A ação avança com as palavras ditas. Nas telenovelas, que são ficção televisiva de baixo custo e portanto com muito mais palavreado, essa regra tem ainda mais força. Se na literatura o narrador se pode encarregar de explicar as motivações dos personagens e no cinema o realizador tem mais tempo e meios para contar a sua história só com sons, música e imagem, a curta duração dos segmentos televisivos obriga a que haja sempre alguém a falar ou prestes a começar a fazê-lo. Para isso preciso que alguém oiça. Os brasileiros chamam “orelhão” ao personagem que está sempre com o personagem principal, que é um nome mais engraçado do que personagem reflexo. O seu papel existir na trama para escutar o que diz o personagem principal e o espectador saber o que este pensa, o que fez e o que vai fazer. A televisão sabe desde sempre que o espectador não está ali para sistematicamente interpretar, fazer hermenêutica ou tentar adivinhar o que a personagem vai fazer, muito menos a televisão tem vagar, dinheiro ou engenho para criar cada cena como uma metáfora de qualquer coisa. Só assim, com palavreado constante, obviedades e redundâncias a eito, a trama pode avançar com nexo, mantendo o espectador cativo e permitindo que falhe um ou outro episódio e mesmo assim se aperceba do que se passa.

Nas novelas comem o pequeno-almoço sentados à mesa porque a mesa serve como arena para que uns falem com outros, terceiros escutem e nós (espectadores) possamos assistir a tudo. As refeições são momentos preciosos como dispositivo de continuidade narrativa para os argumentistas. Nos pequenos-almoços há várias vantagens e que se dane se é inverosímil haver tanta gente calmamente sentada à mesa de manhã. É que à mesa os personagens explicam-se, revelam-se, assumem-se, confessam-se ou relatam o que fizeram ontem e vão fazer daí a pouco. A cadência de chegada e saída de personagens ao pequeno-almoço possibilita confidências, reparos, partilha de segredos e informação, com o espectador a testemunhar tudo, salivando por mais intriga.

(…)

Ligar ou desligar o cérebro: por que gostamos tanto de séries?

O grande escritor americano Kurt Vonnegut (1922-2007) era fascinado pela forma das histórias e chegou a criar uma nomenclatura curiosa para os tipos, que são quase sempre os mesmos ou variantes. As séries mais fáceis de ver, aquelas em que dizemos que “desligamos o cérebro”, são, segundo Vonnegut, histórias tipo “man in hole” – o personagem principal vê-se metido numa encrenca da qual sairá fortalecido (até que, no episódio seguinte, haverá novas encrencas e soluções). Para séries mais complexas, na teoria de Vonnegut, usaríamos a expressão “which way is up” (“para que lado ir?”, numa tradução possível) – acontecem coisas aos protagonistas que os podem tornar melhores ou piores, assim saibam o que o fazer ou como reagir ao que sucede. Em Bagombo Snuff Box: Uncollected Short Fiction, Kurt Vonnegut partilha oito regras para a escrita de histórias que podemos encontrar nas séries mais complexas, mas talvez não (digo eu) nas séries comuns da televisão de sempre, porque estas existem como movimentos perpétuos que dependem da popularidade e das audiências para continuar a existir. Se os melhores livros têm finais e caminham para eles, este tipo de séries caminha apenas para as férias no final da temporada, para voltar meses depois com a mesma brigada, sem que o crescimento ou o desenvolvimento dos personagens seja notório a ponto de se intrometer demasiadamente nessa promessa de entretenimento que o espectador aguarda. A sua história central ou não existe, ou é irrelevante e está cristalizada numa espécie de tempo presente, enquanto a série durar. Segundo as regras de Vonnegut para tornar a ficção melhor, todos os personagens devem desejar e lutar por qualquer coisa, nem que seja um copo de água. Ora, aplique-se este princípio numa primeira destrinça na qualidade da televisão e se os personagens da sua série favorita parecerem bem e confortáveis na sua desinteressante pele, é inútil esperar mais deles do que aquilo que deram até agora.

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Contar histórias, ouvi-las e reproduzi-las, implica darmos sentido a sequências de acontecimentos, até quando esse sentido possa nem estar lá. Numa experiência, nos anos 40, os psicólogos Frizt Heider e Marianne Simmel projetaram um filme com um círculo e dois triângulos, sem texto nem som. Por vezes, as formas aproximavam-se, às vezes, afastavam-se, noutras, desapareciam ou pareciam lutar. Na grande maioria das discrições feitas a pedido dos cientistas, as pessoas interrogadas viram naquele círculo e nos dois triângulos uma história de amor.8 Perante aquilo que vemos, inferimos, intuímos significados, extraímos lições, ensinamentos, modos de agir e de funcionar e até uma “moral” que contamos e recontamos. O “Patinho Feio” ensinar-nos-á a não sermos precipitados a julgar os outros e a não tomarmos por mais fracos aqueles que pensamos serem os mais fracos. Quando partilhamos essas histórias entre nós e as gerações futuras, estamos a tornar os nossos grupos e as nossas sociedades mais coesas, porque os unimos em torno das mesmas referências, e um sistema de crenças partilhado facilita a vida a todos.

Quando sonhamos ou nos imaginamos noutra pele ou noutro contexto contamos uma história a nós próprios. Como seria estar numa sala de concertos se tivéssemos estudado piano? Que faríamos se conhecêssemos um extraterrestre? É provável que, do ponto de vista evolutivo da espécie, o apelo por histórias resida no seu caráter de simulacro. Pensar em mundos e situações alternativas – imaginar – é um treino para o que poderá um dia acontecer e parte importante e decisiva de sermos humanos. Não admira que gostemos tanto de histórias e mais propriamente de séries, e desde que há televisão que nunca tantas pessoas tiveram um acesso tão frequente a ficções cómicas ou dramáticas, o que nos tornou a todos mais sofisticados e aptos a descodificar as complexidades e as várias dimensões das histórias.

As séries de televisão podem ser um lugar feliz e cómodo para onde queremos regressar no fim de um dia difícil, um modo de restabelecer as nossas convicções sobre o mundo e aqueles que nos rodeiam. Ou talvez uma distração, um desenjoo da realidade. Nas séries procuraremos mais motivos para acreditar que no final o Bem triunfa sobre o Mal – ou o inverso, se já formos descrentes. Também vemos séries para não ficarmos de fora das conversas, porque o tempo demora a passar quanto estamos sós ou porque é bom poder partilhá-las com aqueles com quem partilhamos a nossa vida. Gostamos de séries porque chove lá fora. Gostamos de séries porque é fácil vê-las, vários episódios de seguida, até. Bem embalados, nas séries podemos viver vidas mais heroicas e corajosas através dos personagens, mergulhar na complexidade humana, perscrutar, podemos identificarmo-nos com uns mas não com outros, desejar ter sido assim ou vir a ser assim. Certo é que parece haver ficção televisiva para todos os gostos e desejos, até para criar revoluções e mudar o mundo. Em Play All, o crítico Clive James cita a jornalista Slavenka Drakulic, quando esta escreve que os dentes ocidentais que se po-diam ver na televisão teriam sido suficientes por si só para derrubar o muro de Berlim, referindo-se obviamente às dentições perfeitas dos atores americanos e ao modelo que seriam para os habitantes dos países de Leste.

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Não erra por muito quem disser que há duas televisões. A do século XX, própria de quem aprecia e precisa de uma televisão de fluxo, em que se desliga o cérebro e nos deixamos ir, como quem lê um policial na praia nos intervalos da sesta; e a televisão do século XXI, em que convém ter um cérebro ligado e ativo, inquisitivo e apto a detetar subtilezas, matizes e inflexões nas histórias. A televisão do século XX, dos canais em direto, cada um mais feliz e agitado que o seguinte, perdura e é provável que continue, com as suas telenovelas, programas de reality, telejornais, grandes transmissões e as suas séries procedural (nome técnico da indústria), em que os do lado do bem são resolutos a resolver os problemas criados pelos do lado do mal. Até agora, a melhor televisão do século XXI restringe-se quase só a séries (e a alguns documentários) e tem apostado que o espectador merece mais qualidade e sobretudo mais humanidade. Quem viu Os Sopranos – a primeira grande série do seculo XXI – e se lembra das tentativas ridículas do mafioso Christopher em se tornar cineasta, concordará que há ali muito de nós e da nossa falta de noção dos ridículos nas nossas tentativas de escapar àquilo que não queríamos ser. Quem não viu ou não se lembra, por certo já viu algures numa série alguém que detesta ou por quem se apaixonou, alguém que o desiludiu, que teve vontade de conhecer melhor, ou alguém que soube estar à altura das circunstâncias. Na vida não é igual?

Mais depressa ou mais devagar: ritmos das séries

Aparentemente, os monstros sagrados do argumento e da escrita criativa, como, por exemplo, Robert McKee, acham que o recurso a voice over em séries (aquilo que em Portugal chamamos de voz off, ou seja, uma voz que se ouve por cima de imagens) é um facilitismo a evitar. Mas quando usada com propriedade – como em Narcos ou La Casa de Papel a voz off aumenta o ritmo da acção, liga as pontas, facilita a compreensão e ajuda o espectador a perceber muitas coisas – o espectador odeia, detesta, abomina, tem pavor de sentir-se estúpido, numa aversão que será o principal motivo para desistir de um programa ou série. Falando de ritmo, a fórmula de cada episódio na série clássica Missão Impossível (de onde derivam os filmes de cinema recentes) pretende emular o ritmo muito mais apressado e dinâmico dos anúncios publicitários de então e por isso foi vista como bem diferente, mal apareceu, nos anos 50. Talvez seja por isso que resiste muito bem ao tempo. Apesar do preto e branco, alguns episódios veem-se tranquilamente como uma série de agora.

Nas séries, a “quarta parede” raramente é quebrada, porque isso é entendido como batota. House of Cards é uma exceção recente e eloquente, embora não saibamos bem em que registo o protagonista fala connosco diretamente (que é o que acontece quando se “quebra” a “quarta parede”). Que quer Frank Underwood? Cumplicidade? Gabar-se? Ser aceite? Facilitar a vida aos seus argumentistas que assim escusam de nos dar contexto de outros modos? Certo é que até este protagonista se escusa (felizmente) a cortar as unhas à nossa frente, pelo que essa violação da “quarta parede” não é mais do que um dispositivo narrativo (como são os flashbacks ou os segmentos de sonho) para que as coisas aconteçam mais depressa: se somos informados por quem sabe, será então escusado criar cenas para nos esclarecer sobre as incidências. Além disso, é um estratagema engenhoso para poupar dinheiro: cena não mostrada é quase sempre cena não filmada, logo, dinheiro não gasto. Seinfeld (1989-1998) foi uma sitcom emblemática dos anos 90 e para muitos a melhor comédia na história da televisão.

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Numa curiosa análise na revista online Slate11, percebemos que os episódios da primeira temporada tinham em média 10 cenas e que os da final, emitida em 1998, tinham já mais do dobro, entre 20 a 25 cenas. A comédia televisiva tem-se afastado, intensa e constantemente, de uma certa disposição teatral, rumo a um naturalismo que diríamos mais próprio do cinema. Em All In The Family (1971-79), uma série premiada e revolucionária para a época, as interações entre personagens eram quase “quadros” (ou sketches) em que estes estavam parados numa determinada posição (ou marcação) e dialogavam uns com os outros, como se fosse teatro. A personagem principal – Archie Bunker – estava aliás muitas vezes sentada (o seu maple está hoje em dia num museu). Em All In The Family, a fisicalidade do movimento não era parte da linguagem intrínseca à comicidade, salvo em exceções, como irrupções de mau génio de certos personagens. Tanto anos depois, já neste século, em comédias como a genial Modern Family, o padrão desintegra-se, até porque o modelo “single camera” passou a ser maioritário e as cenas cómicas implicam que os personagens façam coisas e andem de um lado para o outro, como nos dramas.

As consagradas e melhores séries de televisão de agora nas plataformas podem ter um ritmo mais pausado e muito menos linear, porque não dependem tanto das audiências aqui e agora. Felizmente, o ritmo frenético já não é o mais importante e a narrativa submete-se à linguagem do autor para este impor a sua história, os personagens, a envolvência, a “atmosfera”. Haja séries novas, que o espectador as verá. Antigamente, não era má vontade, era a necessidade que advinha de a televisão ser em direto e irrepetível: se as séries não fossem como eram, não teriam sobrevivido. Uma das caraterísticas mais fortes e marcadas da televisão de fluxo, desde sempre, é precisamente essa, a de viver irritantemente no presente, ser obcecada com o agora-antes-que-seja-tarde-demais. Por causa da concorrência, mesmo em dias banais, cinzentos e monótonos, a televisão parece sempre como aquele pobre diabo que nos quer convencer a comprar um cartão de crédito no centro comercial. Tanta adrenalina televisiva envelhece e castiga a própria televisão, pelo que mergulhar na Netflix pode ser um narcótico saudável e divertido, como entrar na sala de cinema escura ou como alugar um filme no clube de vídeo e esquecer as desgraças lá de fora. E quem sabe não andamos todos a fugir à televisão em direto porque andamos cansados de tanta atualidade, tanta última hora, tanto ligue já, tanto não perca e tanto já a seguir, fique por aí.

( …)

Ainda Bem Que Ficou Desse Lado – Como ser um melhor espectador de televisão na era das séries, da Netflix e da escolha infinita

De Pedro Boucherie Mendes

Ilustrações: André Carrilho

Escritório Editora (192 páginas)

€13,95

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