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“Escrevo como um cão”. Lobo Antunes na Feira do Livro de Guadalajara, 10 anos depois do prémio

O autor apresenta a edição espanhola de “Não é meia-noite quem quer”, e agradece a “fidalguia muito grande” com que sempre foi tratado no México

Tiago Miranda

O júri dizia que a obra de António Lobo Antunes se destacava pelo aprofundamento da alma humana “no quadro da violência, da luta anticolonial e da transição política em Portugal”, acrescentando que o trabalho do autor era como “uma profunda reflexão sobre a experiência interna dos seres humanos”. Passaram 10 anos desde essa Feira do Livro de Guadalajara de 2008, já incontornável na época, quando o autor português recebeu o prémio de literatura do certame, quase ao mesmo tempo em que descobria um dos cancros que lhe tem atormentado o inverno da vida.

Uma década depois, Portugal volta a estar no centro da capital mexicana do livro, como país convidado da Feira. E António Lobo Antunes, 76 anos, decidiu lá voltar, não só para apresentar a edição espanhola de “Não é meia-noite quem quer”, romance de 2012, como porque sempre foi tratado como um “mestre” pelo povo mexicano, “com uma fidalguia muito grande”, explica ao El País. Aos mexicanos o autor retribui a admiração, que mistura com outros sentimentos: “A vida aqui agora é muito difícil para os mexicanos. Deixa-me furioso que o senhor Trump faça uma pressão como esta sobre um povo que ele não conhece porque é um ignorante, um povo com uma cultura que tem séculos. E chateia-me que ele olhe de cima a baixo gente muito mais nobre. Ele que vá à merda”, disse, citado pela agência Lusa.

Ainda antes de falar nas sessões de segunda e terça-feira, Lobo Antunes teve tempo para, sempre em castelhano, explicar o que sente quando se senta. “Escrever é escutar com mais força. É só organizar as vozes, é um delírio organizado. (...) Um livro é sempre uma surpresa e depois um presente que sinto que não mereço”, explicou.

O jornal espanhol El País aproveitou a presença do autor e os 10 anos do prémio literário para publicar uma entrevista em que se fala sobre uma vida muito além das distinções, que parecem não chegar por acaso. Lobo Antunes começa o trabalho todos os dias às oito da manhã e só interrompe para almoçar, até parar definitivamente às oito da noite. Sempre “escrevendo como um cão”.

A prolífica obra não o desmente. “A Última Porta Antes da Noite” (Dom Quixote, 2018) é apenas o mais recente exemplo.

A Feira Internacional do Livro de Guadalajara termina no dia 2 de dezembro.

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