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Mais vale de borla que mal pago

Demagogia por demagogia, comecemos por uma reflexão inspirada em demagogia de sofá. Dizia esta semana um comentador, na Antena 1, estar muito preocupado com a imagem transmitida para o exterior por um país onde acontecem greves como a muito mediática dos estivadores do porto de Setúbal

Do alto dos seus vários milhares de euros auferidos no final do mês, com contrato sólido (cá está, à troca, o direito à demagogia), o comentador não encontrou uma palavra de condenação para quem mantém dezenas daqueles homens a trabalhar à jorna, alguns há 20 anos. O odioso da questão é deixado para quem, supremo atrevimento, considera, no século XXI, ter direito a reclamar um pagamento justo e um contrato sério. Soeiro Pereira Gomes escrevia em “Praça da Jorna”, mas nos idos de 1946, sobre a indignidade daquele sistema de trabalho assente num “mercado de mão-de-obra, a que vão assalariados e proprietários rurais (ou os seus delegados: os capatazes), e em que os primeiros, como vendedores, oferecem a sua força de trabalho, e os segundos, como compradores, oferecem o salário ou jorna, que é a paga de um dia de trabalho”. É um texto político, claro, porque é de política que se trata quando se trata de precariedade, negação de direitos, destruição de contratação coletiva, recibos verdes, de gente com talento e muita formação desperdiçada em caixas de supermercado.

Tudo isso escorre e acaba por rasgar as entranhas mais empedernidas ao longo da peça apresentada no Armazém 22, em Vila Nova de Gaia, por um coletivo organizado pela companhia Palmilha Dentada a partir de um apelo feito nas redes sociais. A proposta era clara e dirigia-se a estudantes de artes cénicas, atores profissionais desempregados, e criativos de diversas áreas.

O Armazém 22, em Gaia, teve lotações esgotadas

O Armazém 22, em Gaia, teve lotações esgotadas

Apareceu muita gente. Em apenas três semanas foi montado um espetáculo a partir das experiências pessoais dos intérpretes selecionados. Em palco chegavam a estar 18 atores, uns profissionais, outros não. Na maioria não se conheciam de lago algum antes de terem respondido ao anúncio. O texto, abrasivo, inquietante, sem perder a disponibilidade para o humor, fora cosido a partir de múltiplos fragmentos por Ricardo Alves, o mentor do Palmilha Dentada, uma companhia portuense com umas duas décadas a viver os mesmos dramas de quem, pelo país fora, percebe como as lógicas teatrais vigentes estão a destruir as companhias independentes.

Não por acaso, a proposta de Ricardo Alves, deixada depois como aviso ao público, era a de construir um espetáculo com “fortes convicções políticas, não politicamente correto”, com base numa reflexão sobre o atual momento das artes performativas no país e no Norte.

O panorama começa a ser desolador, sobretudo se comparado com a dinâmica e o número de companhias com atividade regular existentes até há alguns anos. É possível recordar a Seiva Trupe, Comediantes, Tear, TEP, Teatro Universitário do Porto, Realejo, Art’Imagem, As Boas Raparigas, Teatro Bruto, Ballet Teatro, Teatro Plástico, Visões Úteis, Pé de Vento, Teatro do Frio, Erva Daninha, e tantas outras. A maioria ficou pelo caminho. Outras sobrevivem num ambiente hostil.

O polémico fecho, em fevereiro deste ano, da Fábrica, uma estrutura onde residiam doze companhias de teatro e diversos criadores individuais, veio acentuar a dramática ausência de espaços para trabalhar e de salas para apresentar espetáculos fora da órbita das coproduções ou das programações dinamizadas pelo Teatro Municipal Rivoli ou pelo Teatro Nacional S. João (TNSJ).

O resultado é a imposição de uma lógica de programação da qual resulta que o trabalho de meses, para preparação, produção e montagem das peças, fica depois remetido a uma frustrante carreira de dois ou três dias em palco.

“Bella Figura”, de Yasmina Reza, pelo Ao Cabo Teatro

“Bella Figura”, de Yasmina Reza, pelo Ao Cabo Teatro

Ainda em outubro, Nuno Cardoso, indigitado diretor do TNSJ, viveu essa situação com a sua companhia Ao Cabo Teatro. A peça “Bella Figura”, de Yasmina Reza, uma coprodução do Ao Cabo Teatro, do Teatro Aveirense e da Câmara Municipal de Viseu, estreou no Auditório Carlos Alberto no dia 2 e terminou a carreira no dia 4. Dir-se-á que, pelos vistos, toca a todos. Mesmo se fosse verdade, nem por isso se transformava numa boa solução, ou, sequer, em algo de aceitável para a criação de uma dinâmica de grupo consistente, capaz de captar públicos.

Foi contra tudo isso que a Palmilha Dentada quis lutar. Pegou em gente de alguma forma desesperada, e fez desse desespero individual o retrato de uma exasperação cada vez mais coletiva. Há quem sustente que esta “lógica festivaleira”, como já a apelidou Ricardo Alves, de espetáculos em dois ou três dias, é o resultado do poder cada vez maior dos programadores nas principais salas. Através das coproduções – muitas vezes a única forma de as pequenas companhias conseguirem ver a luz do dia – exercem, não apenas uma seletiva política de gosto, como assumem o controlo de quanto, como e o que se produz.

A própria Câmara Municipal do Porto, que antes apoiava companhias, agora aposta nas coproduções muito dirigidas, com o Rivoli a impor temporadas que no máximo atingem três ou quatro dias. A cultura do efémero, o desejo de altas rotatividades, aniquila a possibilidade de temporadas mais longas.

“Mais vale de Borla que Mal Pago” teve uma temporada longa ao contrário do que é agora habitual

“Mais vale de Borla que Mal Pago” teve uma temporada longa ao contrário do que é agora habitual

Ora, foi essa a subversão ensaiada e concretizada pela Palmilha Dentada, com um espetáculo que há a expectativa de que possa chegar a Lisboa. Apostou numa carreira mais longa. Estreou a 25 de outubro e só descerrou o pano a 17 de novembro. Sempre com casa cheia. Porque funcionou o boca a boca. Porque houve tempo para se espalhar a notícia. Porque todos aqueles atores e técnicos, para quem até já “Mais vale de Borla que Mal Pago” (título da peça), acreditam que afinal ainda há esperança. Mesmo se após esta estimulante experiência fica a angústia de uma pergunta ainda sem resposta para cada um deles: e agora?

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