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Morreu o cantor lírico e médico Álvaro Malta aos 87 anos

O Teatro Nacional de São Carlos emitiu uma nota de consternação e pesar pela morte do cantor que definiu como "uma figura incontornável na lírica portuguesa do século XX"

O cantor e médico Álvaro Malta

O cantor lírico Álvaro Malta, 87 anos, que contracenou em 1958, no Teatro Nacional de S. Carlos (TNSC), com Maria Callas, morreu este sábado, dia 24, em Lisboa, informou aquele teatro.

O velório de Álvaro Malta realiza-se esta noite na Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, na Avenida de Berna, em Lisboa, e no domingo, dia 25, pelas 14h30 é celebrada missa, seguindo-se o funeral para o cemitério do Alto de São João, também em Lisboa.

Álvaro Malta protagonizou "uma das carreiras de maior destaque na ópera em Portugal", que exerceu, paralelamente, à de médico na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa.

Segundo a "Enciclopédia da Música Portuguesa do Século XX", Álvaro Malta demonstrou "qualidades como ator e cantor, possuindo uma voz potente, maleável e equilibrada em todos os registos".

O cantor, que iniciou a carreira médica em 1961, apontou, numa entrevista à agência Lusa, como um dos pontos altos da sua carreira artística, o ter desempenhado, em 1958, o papel do barão Duphoi na ópera "La Traviata", de Verdi, com Maria Callas, no Teatro Nacional de S. Carlos, onde se tinha estreado como cantor de ópera seis anos antes.

Álvaro Malta contava o pormenor de cena em que Maria Callas deixou cair o leque, e ele o apanhou e a soprano lhe agradeceu, com "uma troca de olhares".

A gravação desta récita, que decorreu sob a direção musical do maestro Franco Ghione (1886-1964), que esteve à frente do coro e da Orquestra Sinfónica do TNSC, foi reeditada em fevereiro último, quando se celebraram os 60 anos da estreia de Maria Callas (1923-1977) em Lisboa.

Final do I ato da "Traviata": Callas com Álvaro Malta e Alfredo Kraus

Final do I ato da "Traviata": Callas com Álvaro Malta e Alfredo Kraus

Luiz Mendes

Cantor e médico

Nascido em 1931, Álvaro Malta teve o primeiro contacto com a música aos seis anos, a tocar bandolim. Mais tarde, no Seminário dos Olivais, começou a estudar música sacra e canto gregoriano. Integrou o Coro do Teatro Nacional de São Carlos em dezembro de 1949, tendo nesse ano feito exames de solfejo no Conservatório Nacional, em Lisboa. No ano seguinte iniciou estudos musicais com Elena Pellegrini, que foi a sua única professora.

Em junho de 1951 apresentou-se como solista, numa apresentação do "Requiem", de Mozart, na igreja de S. Domingos, em Lisboa, e, em novembro de 1952, estreou-se como cantor de ópera, interpretando os papéis de Oficial e o de Escrivão em "Inês Pereira", de Ruy Coelho, levada à cena no TNSC.

Segundo a "Enciclopédia da Música Portuguesa do Século XX", entre os papéis operáticos que desempenhou, destacaram-se o de Fígaro, em "As Bodas de Fígaro", de Mozart, Papageno, em "A Flauta Mágica", também de Mozart, e como protagonista da ópera "Don Quichotte", de Massenet. Em 1966 substituiu à última hora o baixo Miroslav Cangalovic no Mefistófeles da ópera "Fausto" de Gounod (que depois cantaria no Théâtre de la Monnaie em Bruxelas).

Como cantor de ópera atuou em várias salas portuguesas, nomeadamente no TNSC e no Teatro da Trindade, em Lisboa, com a Companhia Portuguesa de Ópera (1966-1975), mas também em Madrid, em 1961, em Nantes, em França, em 1965 e 1969, em Barcelona, em Espanha, em 1965 e 1970, em Paris, em 1969, em Bruxelas, em 1966, 1967 e 1977, em Teerão, em 1970, em Lyon, em França, em 1980, em Nancy, também em França, em 1980 e 1981, e no Festival de Ópera de Wexford, na República da Irlanda, em 1977 e 1978.

O cantor estreou várias óperas, nomeadamente, de Ruy Coelho (1889-1986), "A Feira" e "Auto da Alma", de Frederico de Freitas (1902-1980), "A Igreja do Mar" e "D. João e as Sombras", e recuperada por este compositor, a estreia moderna de "A Condessa Caprichosa", de Marcos Portugal (162-1830), e ainda, e de Joly Braga Santos (1924-1988), "Trilogia das Barcas" e como solista o "Requiem à Memória de Pedro Freitas Branco".

Em julho de 1988 o cantor lírico deu por terminada a sua carreira operática, passando só a cantar esporadicamente.

Nota de consternação do TNSC

O Teatro Nacional de São Carlos emitiu este sábado uma nota de consternação e pesar pela morte do cantor Álvaro Malta, "uma figura incontornável na lírica portuguesa do século XX".

O teatro sublinha que no seu palco, Álvaro Malta assumiu um papel de relevo na divulgação da lírica nacional, tendo interpretado óperas de vários séculos: referindo apenas "As Guerras do Alecrim e Manjerona" de António José da Silva; "A Serrana" de Alfredo Keil; "Mérope" (estreia mundial) e "Trilogia das Barcas" de Joly Braga Santos; "Canto da Ocidental Praia" (estreia mundial), em que interpretou o papel de Camões, de António Victorino d'Almeida.

Marcelo Rebelo de Sousa reage à morte de “um talento ímpar”

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, apresentou hoje as "sentidas condolências" à família de Álvaro Malta, "um talento ímpar na história do canto lírico português", que morreu no sábado, aos 87 anos.

"Álvaro Malta será recordado com carinho por todos quantos o conheceram ou com ele tiveram oportunidade de aprender. E será certamente uma inspiração para os que estão ainda a começar as suas carreiras, para que não desistam perante as dificuldades, como Álvaro Malta não desistiu quando percebeu que o talento e a vontade de cantar eram inderrotáveis", refere uma nota publicada na página da internet da Presidência da República.

Marcelo Rebelo de Sousa recorda que Álvaro Malta "partilhou o palco com os melhores dos melhores", sublinhando que "parece inevitável lembrar que Álvaro Malta cantou com Maria Callas em 1958, precisamente no [Teatro] São Carlos".

"Era ainda um jovem estudante de medicina quando, um dia, resolveu inscrever-se num concurso para integrar o coro do Teatro Nacional São Carlos, e assim ajudar os pais a pagar as despesas do curso. Na altura disseram-lhe que a sua voz não era suficientemente boa. Álvaro Malta não desistiu, teve aulas de canto, e três meses mais tarde tentou de novo - e assim começou a sua brilhante carreira", descreveu o Presidente da República.

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