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Michelle Obama na primeira pessoa: “A ida para a Universidade”, para ler no Vida Extra

“Becoming: A Minha História”, o livro de memórias de Michelle Obama, a antiga Primeira-Dama convida os leitores a entrar no seu mundo. É aqui que revela as experiências que a moldaram — desde a infância na zona sul de Chicago, passando pelos anos como executiva, até ao tempo na Casa Branca. Leia aqui um excerto do capítulo 5, sobre a entrada no ensino superior

Courtesy of the Obama-Robinson F

Quando chegou a altura de escolher uma universidade, quer eu quer a Santita estávamos interessadas em universidades na Costa Leste. Ela foi conhecer a de Harvard, mas perdeu a motivação por, no gabinete de admissões, o funcionário que a recebeu a ter atormentado intencionalmente a propósito das posições políticas do pai, quando tudo o que ela queria era ser aceite por si. Eu passei um fim-de-semana em Princeton com o Craig, que parecia ter encontrado um ritmo produtivo entre jogar basquetebol, ir às aulas e passar o tempo livre num centro no campus destinado às minorias. O campus era grande e bonito — uma universidade da Ivy League coberta de hera5 —, e os amigos 5 No original, ivy, «hera», jogo de palavras com Ivy League, nome por que é conhecido o conjunto das oito universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos. (N. das T do Craig pareciam bastante simpáticos. A partir daí, não pensei demasiado sobre o assunto. Entre os meus familiares directos ninguém tinha assim muita experiência directa com universidades, pelo que de qualquer das formas haveria pouco a debater ou explorar. Como sempre, achei que, se o Craig gostava, eu também iria gostar, e aquilo que ele conseguia alcançar eu também conseguiria. E, assim, Princeton tornou- -se a minha primeira escolha.

No início do meu último ano na Whitney Young, tive uma primeira reunião, que era obrigatória, com a orientadora vocacional que me fora atribuída.

Não sou propriamente capaz de descrever a orientadora, porque apaguei deliberadamente e quase de imediato toda a experiência da minha cabeça. Não me recordo da sua idade ou raça ou de como olhou para mim naquele dia quando assomei à porta do seu escritório, cheia de orgulho por estar a caminho de terminar o secundário entre os dez por cento melhores da minha turma na Whitney Young, ter sido eleita a tesoureira do último ano, ter sido distinguida pela Sociedade Nacional de Honra (a organização nacional que reconhece os alunos do ensino secundário que mais se destacam) e ter conseguido derrotar praticamente todas as dúvidas com que tinha chegado, nervosa, no nono ano. Não me lembro se ela analisou o meu processo antes ou depois de eu ter anunciado o meu interesse, no Outono seguinte, de me juntar ao meu irmão em Princeton.

É possível, aliás, que durante a nossa breve reunião a orientadora me tenha feito observações positivas e úteis, mas não me recordo de nenhuma. Porque, fosse certo ou fosse errado da minha parte, estaquei numa frase em específico que a mulher proferiu:

— Não tenho a certeza — começou ela, exibindo-me o sorriso paternalista da praxe — de que sejas adequada para Princeton.

O seu juízo de valor foi tão imediato quanto depreciativo, provavelmente baseado num cálculo feito de relance considerando as minhas notas e os resultados dos meus exames. Imagino que se tratasse de uma versão do que aquela mulher fazia durante todo o dia e com a eficiência nascida da prática, dizendo aos finalistas onde se encaixavam ou não. Tenho a certeza de que ela achava que só estava a ser realista. Duvido que tenha ficado a pensar na nossa conversa.

Mas, como já disse, o fracasso é um sentimento muito antes de ser um resultado real. E, para mim, foi como se ela semeasse exactamente isso: uma sugestão de fracasso muito antes de eu ter sequer tentado ter êxito. Ela estava a dizer-me para baixar a fasquia, precisamente o oposto de tudo o que os meus pais alguma vez me tinham dito.

Se tivesse decidido acreditar nela, o seu parecer teria feito desabar a minha confiança outra vez, revivendo o velho mantra «não chega, não chega».

Mas os três anos a manter-me ao lado dos alunos ambiciosos da Whitney Young tinham-me ensinado que eu era algo mais. Não ia deixar que a opinião de uma pessoa apagasse tudo o que eu pensava saber de mim própria. Então, mudei de método sem alterar o meu objectivo. Candidatar-me-ia a Princeton e a um leque variado de outras universidades, mas sem mais intervenção da orientadora vocacional. Pedi ajuda, ao invés, a alguém que realmente me conhecia. O senhor Smith, o assistente do reitor que era meu vizinho, testemunha dos meus pontos fortes enquanto aluna e que, além disso, me confiara os próprios filhos. Acedeu a escrever-me uma carta de recomendação.

Considero-me uma sortuda por até hoje ter conhecido todo o tipo de indivíduos extraordinários e talentosos: dirigentes mundiais, inventores, músicos, astronautas, atletas, professores, empresários, artistas, escritores, investigadores e médicos inovadores. Alguns (embora não os suficientes) são mulheres. Alguns (embora não os suficientes) são negros ou de cor. Alguns nasceram pobres ou viveram vidas que a muitos de nós pareceriam injustamente oneradas com adversidades, e ainda assim parecem operar como se tivessem beneficiado de todas as vantagens do mundo. O que aprendi foi o seguinte: todos se depararam com pessoas que duvidaram deles. Alguns continuam a coleccionar críticos e pessoas do contra, tão ensurdecedores e em tanta quantidade que seriam capazes de encher um estádio, que lhes gritarão «eu bem avisei» a cada errozinho ou passo em falso. Esse coro nunca se cala, mas as pessoas mais realizadas que conheci conseguiram descobrir como viver com isso, como apoiarem-se em quem acredita nelas e como levar avante os seus objectivos.

Naquele dia, saí furibunda do gabinete da orientadora vocacional na Whitney Young, e acima de tudo com o ego magoado. O meu único pensamento no momento era: «Eu já te vou mostrar como é.»

Mas depois acalmei-me e voltei ao trabalho. Nunca achei que entrar na universidade ia ser fácil, mas estava a aprender a concentrar-me e a ter fé na minha própria história. Tentei contá-la na íntegra na carta de apresentação. Em vez de fingir que era incrivelmente intelectual e que achava que me ia enquadrar na perfeição dentro das paredes cobertas de hera de Princeton, escrevi sobre a esclerose múltipla do meu pai e a falta de experiência da minha família com o ensino superior. Assumi o facto de estar a tentar chegar mais longe. Tendo em conta de onde vinha, a verdade é que não me restava mais nada senão tentar chegar mais longe.

E, em última análise, creio que isso realmente mostrou como eu era à orientadora, pois, seis ou sete meses volvidos, chegou uma carta à nossa caixa de correio na Euclid com a admissão em Princeton. Eu e os meus pais celebrámos nessa noite com uma piza encomendada ao Italian Fiesta. Liguei ao Craig e comuniquei-lhe a boa notícia aos berros. No dia seguinte, fui bater à porta do senhor Smith para lhe contar a minha admissão, agradecendo-lhe pela ajuda. Nunca cheguei a ir ter com a orientadora vocacional para lhe dizer que estava equivocada — que afinal eu sempre era adequada a Princeton. Não traria nada de novo, a nenhuma das duas. E, bem vistas as coisas, não tinha precisado de lhe mostrar nada. Estava apenas a mostrá-lo a mim própria.

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