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Há vida em Marte

A minissérie da National Geographic está de regresso, com novos visitantes a chegar ao planeta vermelho. Mistura de ficção e documentário, os episódios alternam entre o ano de 2042 em Marte e o presente na Terra

Abril de 2042, Olympus Town, Marte: com a primeira colónia de humanos estabelecida e em pleno funcionamento, os cientistas da International Mars Science Foundation (IMSF) aguardam a chegada de uma equipa de especialistas em extração de recursos naturais. Nove anos depois de ter aterrado no planeta vermelho, a expedição da IMSF não pode continuar sem o financiamento de empresas privadas. Sobretudo na tentativa de tornar a atmosfera de Marte habitável.

No presente, trabalhadores da base Goliat, a plataforma petrolífera mais a norte do planeta Terra, ‘atracada’ no mar de Barents, explicam como é trabalhar sob condições meteorológicas extremas, de alto risco e que obrigam a estar longe das famílias durante três semanas de cada vez, sem interrupção.

Entre o oceano glacial Ártico e o ambiente inóspito de Marte são mais de 50 milhões de quilómetros de distância e por mais frio que faça no extremo norte as temperaturas estão muito longe de se aproximar das dezenas de graus negativos que são registados em Marte. E acima de tudo consegue-se respirar. Ainda assim, é no extremo das condições do Ártico ou das estações de pesquisa da Antártida que se podem encontrar mais semelhanças com o que o homem há de ter pela frente em Marte quando lá chegar. Esse dia pode demorar uma, duas ou três décadas a acontecer. Mas está cada vez mais próximo, acreditam vários especialistas.

É entre a ficção sobre um futuro possível e a realidade que a segunda temporada da série “Marte”, uma megaprodução do canal National Geographic, vai continuar. O modelo híbrido, entre o documentário e a ficção, é um dos traços distintivos da série. “Não conheço nenhum programa de televisão que tenha sido feito nestes moldes”, diz Dee Johnson, a showrunner convidada para liderar a produção da segunda temporada de “Marte” e que já tinha estado em séries como “Nashville”, “Boss” e “ER”.

Cada um dos seis episódios vai assim alternando entre o presente, com entrevistas a alguns dos maiores especialistas em tecnologia, exploração espacial ou ambiente, e o ano de 2042, passado em Marte, nas colónias da IMSF e da Lukrum, a empresa que chegou ao planeta para ajudar a explorar os recursos do planeta.

Elon Musk, CEO da SpaceX e uma das pessoas mais determinadas em levar homens e mulheres a Marte, antigos astronautas da NASA, Bill Nye, CEO da Planetary Society, e escritores como Andy Weir, autor do livro “The Martian”, e Stephen Petranek, autor de “How We’ll Live on Mars”, obra que inspirou a série, são alguns dos entrevistados que falam e antecipam os desafios do que será, acreditam, a vida em Marte.

A ideia, explica Dee Johnson, é que mesmo a parte ficcional assente não em ideias fantasiosas de um futuro imaginário, mas em bases reais e plausíveis. Como a ideia de ‘terraformar’ Marte ou por outras palavras transformar a atmosfera do planeta, garantindo a existência de maiores níveis de oxigénio, à semelhança da Terra.

“Os nossos consultores científicos estiveram a trabalhar connosco desde o início. Sabiam exatamente o que queríamos contar em cada episódio e foi possível filmar a parte documental em simultâneo com a parte de ficção, tentando encontrar na Terra situações análogas às que os personagens em Marte estavam a experimentar”, conta Dee Johnson em entrevista telefónica.

As escolhas que tiveram de ser feitas em termos de argumento foram outro dos desafios. Se é habitual nas séries os espectadores serem avisados de que qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência, no caso de “Marte” o princípio é o contrário. E houve situações em que os guionistas acertaram em cheio, congratula-se a produtora. “Tivemos de decidir se íamos encontrar água em estado líquido no planeta. Decidimos que sim e já na altura em que estávamos na pós-produção da série foi anunciada a descoberta da possível existência de um lago de água líquida debaixo de uma camada de gelo. Tínhamos tomado a decisão certa!”

Mais complicado, reconhece Dee Johnson, é prever os efeitos de longo prazo que uma viagem de sete meses dentro de uma nave exígua para chegar a Marte e uma estadia num dos ambientes mais hostis que se pode imaginar – em termos de temperaturas e de radiação, por exemplo – podem ter no homem.

Quanto aos atores, regressam os da primeira temporada e juntam-se novos protagonistas como Jeff Hephner (“Chicago Med”, “Code Black”), no papel de Kurt Hurrelle, o líder da equipa da Lukrum, ou Esai Morales (“Ozark”, “NYPD Blue”), que faz de CEO da empresa mineira.

É à volta dos conflitos de interesses entre os cientistas das colónias de Olympus Town e os propósitos lucrativos da Lukrum que gira grande parte da segunda temporada de “Marte”. “Quando a vida se tornar interplanetária, irão os humanos fazer diferente ou estão condenados a repetir os mesmos erros que cometeram na Terra?”, interroga a sinopse da série.

“Claro que vamos precisar do dinheiro de empresas e investidores privados. Mas eu espero sinceramente que a mentalidade mude. A ideia de assistir a uma corrida das grandes corporações para Marte só para fazer lucro enoja-me. Chegar a Marte é um sonho inspirador, que podemos partilhar, mas para o qual precisamos de apoio de todos os países”, diz a atriz francesa Clémentine Poidaz (“Marie Antoinette”, “Housewife”), que faz o papel de médica e bioquímica e mãe do primeiro bebé a nascer em Marte.

Se ao início nada sabia sobre o planeta vermelho, à medida que foi trabalhando na série Clémentine confessa que se tornou “completamente obcecada” por Marte. “Eu nem sabia que queríamos ir lá, pensava que era uma ideia de ficção científica. Depois fui aprendendo mais e mais. Estava sempre a olhar para a app no telemóvel para ver onde estava o planeta lá em cima. E neste momento – sou provavelmente a única da equipa a dizer isto –, se tivesse essa oportunidade gostava de lá ir.”

Por agora, imagina quão “incrível” será o momento, “dentro de 10 ou 15 anos”, em que se assistirá na televisão à chegada do primeiro homem a Marte. Tal como aconteceu há 49 anos, quando Neil Armstrong caminhou sobre a superfície lunar.

A segunda temporada de “Marte”, produzida por Brian Grazer e Ron Howard, estreia amanhã, às 22h30, no National Geographic.

O Expresso viajou a convite da National Geographic

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