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Por dentro do “Capricho” de Gaudí — a rara e colorida vivenda construída pelo arquiteto longe da Catalunha

A maioria das grandes obras de Antoni Gaudí não passa os limites fronteiriços da região onde nasceu e viveu boa parte da vida. “El Capricho”, porém, foi uma encomenda especial de um magnata bem-sucedido. Falámos com David Cardelús, o fotógrafo que agora lhe deu uma vida extra

“El Capricho”

David Cardelús

O cenário é Comillas, região da Cantabria, a cerca de sete horas de carro da Catalunha a que Antoni Gaudí sempre chamou casa, e onde construiu várias. Com pouco mais de dois mil habitantes, são notícia as praias de areia fina que por lá se deitam e os chalets que as observam. Há, porém, um que é diferente de todos os outros.

El Capricho” é uma vivenda desenhada por Gaudí e construída entre 1883 e 1885 para servir de residência de veraneio a Máximo Díaz de Quijano, empresário que fez fortuna nas Américas e regressou por essa altura à Cantabria natal. Por incrível que pareça, não consta que Gaudí e Quijano se tenham conhecido, uma vez que o arquiteto morreu no ano em que a obra ficou concluída, sem ter tido oportunidade de a visitar. Gaudí terá estado em Comillas apenas de passagem e disfarçadamente, pelo que se lê nas memórias de Joan Matamala, “O meu itinerário com o arquiteto”.

Com heranças, vendas e abandonos à mistura, a Villa Quijano, como é também conhecida a obra, passou em janeiro de 1992 para as mãos da companhia japonesa Mido Development Co. Ltd, que por lá instalou um restaurante e abriu o espaço ao público para atividades de lazer, exposições e visitas guiadas. Recentemente, o fotógrafo David Cardelús esteve lá numa espécie de homenagem a um arquiteto cujo trabalho tem retratado nos últimos anos, e a um espaço ainda desconhecido para muitos admiradores. Cardelús brinca com as linhas, formas e cores do edifício para mostrar “toda a sua personalidade” e para lhe dar vida, como se nascesse de cada vez que é retratado.

Conversámos com Cardelús sobre esta viagem e “entrámos” com ele em “El Capricho” (veja as imagens na galeria abaixo).

Vida Extra (VE): O que o levou à Villa Quijano?

David Cardelús (DC): Tenho estado profissionalmente dedicado à fotografia de arquitetura há bastante tempo e, nos últimos anos, também à fotografia de património arquitetónico. Vivo em Barcelona, muito perto de vários dos edifícios de Antoni Gaudí, aos quais chego andando apenas uns metros, e de muitos outros modernistas catalães, e tenho sido muito influenciado por essa arquitetura única. Tive a sorte de fotografar vários trabalhos de Gaudí e ir ao “El Capricho” acabou por resultar de uma oportunidade fantástica de trabalhar na comunicação do edifício.

VE: O que sabia sobre o dono do espaço e o que descobriu ao fotografá-lo?

DC: Os atuais donos do “El Capricho” são pessoas muito comprometidas com a conservação do espaço, com a preservação do legado cultural de Comillas e com a difusão do trabalho de Gaudí. O que descobri como profissional foi um grupo de pessoas determinadas a explicar o que torna este edifício único a todos os que virem as imagens. Na verdade, se pensarmos sobre isso, as fotografias são a primeira notícia ou experiência que um observador tem de muitos trabalhos arquitetónicos.

VE: Mas considera que a casa é conhecida entre os admiradores de Gaudí?

DC: É um dos poucos trabalhos de Gaudí que não fica em Barcelona ou na Catalunha, e isso faz com que não seja tão conhecido para a generalidade do público. Boa parte da intenção destas fotografias que tirei para os proprietários do edifício foi a de atrair novos olhares e de lhe dar maior visibilidade entre os trabalhos do arquiteto.

VE: E o que o surpreendeu nesse processo?

DC: Sem dúvida, a combinação entre a paisagem circundante e a paleta de cores do edifício, entre o verde e o laranja, além da forma como os tons mudam de acordo com as diferentes qualidades da luz solar e da passagem das nuvens. É como contemplar um pequeno edifício com a aparência de uma casa de bonecas sob a iluminação cénica do palco de um enorme teatro natural. A paisagem da Cantabria torna tudo mais impressionante e dá ao “El Capricho” um caráter que outros trabalhos de Gaudí certamente não têm.

VE: Como funciona esse jogo entre a disposição da casa, e dos seus elementos, e a posição do sol?

DC: É um compasso perfeito, porque o “El Capricho” está perfeitamente orientado de acordo com o movimento do sol, do amanhecer ao anoitecer. Todas as atividades e serviços domésticos da casa seguem essa viagem. Além disso, toda a fachada do edifício está coberta com tijolos e azulejos de girassóis, com a intenção de 'agarrar' a luz solar do céu muito mutável e frequentemente nublado da Cantabria.

Do ponto de vista de um fotógrafo de arquitetura, a precisão do movimento do sol é fabulosa para organizar a iluminação do edifício com muito mais intenção do que é habitual neste tipo de fotografias.

VE: O que é que o nome “El Capricho” diz desta obra?

DC: A palavra capricho [igual em português e espanhol] aponta para os diferentes gostos e hobbies que o dono quis transferir para o projeto arquitetónico e que Gaudí representou nele - Quijano era um músico amador e é por isso que muitos dos trabalhos em ferro do “El Capricho” representam notas musicais, entre outras coisas. O nome também expressa a perceção que os habitantes de Comillas naquela altura tinham de uma arquitetura que era muito extravagante aos olhos deles, era o capricho de um magnata rico.

VE: E o que é que a casa diz do trabalho de Gaudí, pelo menos naquela fase? O que a distingue das outras, para lá das cores?

DC: Este foi um dos trabalhos que ele fez durante a juventude e é muito visível a influência oriental, especialmente num elemento tão notável como o minarete persa [a torre que emana da casa]. O uso de materiais é também muito característico e mostra as várias soluções que se tornariam evidentes nos trabalhos seguintes.

VE: A sua atenção ao detalhe é um reflexo do trabalho do arquiteto ou é uma forma natural de fotografar?

DC: Eu trabalho sempre com o mesmo rigor, mas em ocasiões como esta, em que me cruzo com o trabalho de um arquiteto a quem o rótulo de 'génio' assenta perfeitamente, trabalho ainda mais duro. Todo o meu trabalho procura interpretar os edifícios com um olhar diferente, tentando também cativar a curiosidade das pessoas que veem as minhas fotografias, independentemente do lugar do mundo de onde o fazem. Para isso, tenho que estar muito atento aos milhares e milhares de fotografias do trabalho de Gaudí que todos os dias são colocadas na internet e com as quais luto, no sentido de mostrar algo novo. A vida das fotografias dá-se hoje em dia na internet, permanentemente e em todo o lado. Uma imagem de arquitetura de fraca qualidade repele o observador, enquanto um olhar atento atrai a sua curiosidade. Eu trabalho sempre com essa intenção, tentar seduzir quem vê as minhas fotografias.

VE: Foi seduzido também por este trabalho de Gaudí, ele mudou de alguma forma a imagem que tinha?

DC: Fotografar o “El Capricho” ensinou-me que todos os detalhes, não interessa quão pequenos são, importam. Que a soma de todos os detalhes cria a harmonia que faz da arquitetura de Gaudí aquilo que hoje todos admiramos e que, acima de tudo, esta harmonia única é a qualidade que faz com que os seus edifícios sejam colocados fora do tempo, da mesmíssima forma que normalmente entendemos as obras de arte. Ter a oportunidade de trabalhar com a câmara e perceber o significado de todos esses detalhes é um presente para qualquer fotógrafo de arquitetura.

Acompanhe o trabalho de Cardelús no site profissional do fotógrafo.

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