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Novo Mundo desagua na Casa da Música

A diversidade das músicas nascidas no continente americano, do tango ao jazz, do samba à bossa nova, da rumba e da salsa ao reggae, com passagem por abordagens mais eruditas, será o tema em destaque na próxima temporada. O arranque, em janeiro, faz-se com “Dar novos mundos ao Mundo”

A música produzida ao longo dos tempos no vasto continente americano está longe de ser um todo coerente, do mesmo modo que é muito diversa a geografia humana, cultural e paisagística daquele imenso espaço onde evoluíram múltiplas culturas. Por comodidade de expressão e numa referência ao tempo da chegada de navegadores para quem tudo aquilo era uma novidade absoluta, até no domínio do conhecimento, continua a chamar-se “Novo Mundo” a um mundo que a Casa da Música quer homenagear na temporada de 2019.

Uma rápida passagem pela programação faz realçar a evidência de que, do ponto de vista musical, as propostas foram num dado momento tão novas e persistiram tão variadas como as latitudes das suas origens. Só isso explica expressões tão fortes como o tango saído da Argentina ou a força do jazz desenvolvido nos Estados Unidos da América. São dois polos, um a sul, o outro a norte. Pelo meio há outras poderosas manifestações musicais, como o samba ou a bossa nova, no Brasil, a salsa com muito cheiro a Caraíbas ou o reggae tão identificado com a Jamaica.

O resultado plasmou-se na existência de uma miríade de compositores associados aos mais diversos estilos, como Alberto Ginastera, Mauricio Kagel, Heitor Villa-Lobos, Silvestre Revueltas, George Gershwin, Aaron Copland, Leornard Bernstein, Charles Ives, John Cage, Elliott Carter, Conlon Nancarrow, o americanizado Edgard Varèse ou Claude Vivier. São apenas alguns dos que ao longo de 2019 ocuparão a programação a cargo dos Agrupamentos Residentes da Casa da Música.

Quando os europeus chegaram às Américas já muitas músicas por lá circulavam. Os nativos tinham os seus próprios códigos de expressão musical. Porém, como a mistura faz parte da natureza humana, não tardaram a estabelecer-se os confrontos, ou as mesclas entre as propostas dos novos colonos e as que os povos nativos, tantas vezes escravizados, já há muito desenvolviam.

Tudo isto, dizem os responsáveis da Casa da Música, “determinou de forma muito tipicamente americana, uma descomplexada integração da música popular na erudita, ou seja, a apropriação pelos compositores eruditos da música produzida pelos povos indígenas americanos e pelos escravos africanos e seus descendente”.

O festival de abertura, em janeiro, intitulado “Dar novos mundos ao Mundo” propõe-se proporcionar a introdução num novo universo sonoro, “marcado pela ascensão da música popular às esferas da alta cultura”. Como seria de esperar, aí está o trabalho de um europeu radicado em Nova Iorque, chamado Antonín Dvořák, de quem será apresentada a “Sinfonia do Novo Mundo”, cuja melodia mais famosa se diz poder ter sido inspirada nas canções dos trabalhadores das plantações de algodão. Ou seja, música de escravos. Uns dias depois, a Orquestra Sinfónica interpretará obras de Bernstein,Gershwin, Vivier, Revueltas, Varèse / Baldur Brönnimann.

É ainda em janeiro que abrem dois ciclos que poderão marcar a temporada. Desde logo, a integral das Sinfonias de Tchaikovski, durante o qual a Sinfónica será dirigida por maestros como Michail Jurovski ou Vassily Sinaisky. Depois há um Ciclo Grandes Canções Orquestrais destinado a percorrer 400 anos deste género musical com a Orquestra Barroca, o Remix Ensemble e a Sinfónica, desde Pergolesi até Jörg Widmann, este ano Artista em Residência na CdM. O ciclo inclui ainda obras de Mozart, Mussorgski, Wagner, Richard Strauss e Claude Vivier, e inclui a participação de alguns grandes nomes do canto lírico, como Iestyn Davies, Chen Reiss, Paula Murrihy, Ekaterina Gubanova, Anne Schwanewilms, Anna Palimina ou Thomas E. Bauer.

A tudo isto, e de modo a fazer de 2019 um grande ano da Voz na CdM, juntar-se-à a Sinfonia nº4 de Charles Ives, em estreia nacional, o Stabat Mater de Dvořák, a Missa nº 5 de Schubert, a oratória Paulus de Mendelssohn, as Vésperas de Santo Inácio de Domenico Zipoli, ou ainda os concertos da temporada a cappella do Coro.

Ao longo do ano regressam ciclos já referenciais da programação da Casa da Música, como o “Invicta.Música.Filmes”, em fevereiro ou, em abril, o sempre muito aguardado “Música e Revolução”. Este ano permitirá uma abordagem aprofundada da música de György Ligeti, um outro revolucionário musical do século X.

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