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“Tem de haver mais obras de Santa Rita Pintor e elas têm de aparecer”. Três inéditos são apresentados a partir desta quarta-feira

Exposição dos desenhos, até maio desconhecidos e nunca apresentados ao público, começa esta quarta-feira, 7 de novembro, no terceiro “Salão de Outono” do Museu da Guarda. O Vida Extra falou com o diretor do museu, João Mendes Rosa, para entender o significado da iniciativa

João Mendes Rosa

Fotografia: Pedro Vilaça Delgado

Os movimentos Futurista e Surrealista em Portugal são destaque no “3º Salão de Outono - Aberto para Obras” do Museu Regional da Guarda, que apresenta pela primeira vez três desenhos de Guilherme Santa Rita (ou Santa Rita Pintor, como sempre assinou), revelados em maio numa série de conferências a ele dedicada na Fundação Calouste Gulbenkian. O Vida Extra antecipou a exposição junto de João Mendes Rosa, diretor do museu guardense, a poucas horas do seu início, às 18h30.

Vida Extra (VE): Como se chegou ao Salão de Outono do Museu da Guarda como o local para apresentar estes desenhos, cuja existência foi apenas descoberta em maio?

João Mendes Rosa (JMR): Para responder a essa questão permita-me que recue um pouco. Em 2016, sabendo que dois anos depois se cumpriria o centenário da morte de Santa Rita Pintor, que como se sabe foi o pioneiro do Futurismo em Portugal e que que trouxe de Paris, em 1914, ideias absolutamente transformadoras da arte e da cultura, muito graças ao convívio com Picasso, Braque, Mondigliani, Picabia, Apollinaire, etc. - autoproclamava-se verdadeiro legatário de Marintetti - eu, enquanto director do Museu Regional da Guarda, e o docente na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa Fernando Rosa Dias começámos a idear uma homenagem ao autor de “Orpheu dos Infernos” e tivemos para isso duas reuniões no Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), que não obtiveram – por razões que que não vêm agora ao caso – a consecução que se pretendia.

Sabíamos que o jornalista João MacDonald estaria a elaborar uma aturada biografia de Santa Rita e, entretanto, Fernando Rosa Dias leva por diante a iniciativa de se organizar um colóquio de estudo e reflexão sobre a obra do artista em apreço, na Faculdade de Belas Artes e que aconteceu em maio do corrente. Eu mesmo porfiava para que o ano do centenário não findasse sem que se organizasse um pequeno tributo de carácter expositivo a Santa Rita Pintor, sendo que entretanto outras meritórias evocações - promovidas por individualidades várias - se realizaram em prol do promotor da revista “Portugal Futurista” (1017 e membro de pleno direito dessa plêiade de ouro que foi a “Geração de Orpheu” - integrada por Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso, Raul Leal, Bettencourt Rebello, entre outros…

No decurso do colóquio predito e como o mesmo merecera algum destaque jornalístico, os herdeiros do alfarrabista Américo Francisco Marques (Rua do Alecrim) deram a conhecer aos participantes a existência dessas três obras de Santa Rita, até aí inteiramente desconhecidas.

Ora, como estava a organizar a terceira edição do “Salão de Outono do Museu da Guarda – Aberto para obras” achei que seria o momento ideal para uma pequena exposição alusiva a Santa Rita. Com a ajuda da família do pintor – que, como se sabe expressou, como seu último desejo que a sua obra fosse toda destruída – e o prestimoso entusiasmo de João MacDonald, conseguimos chegar a uma das obras sobreviventes, o mítico óleo modernista “Orpheu dos Infernos” (c. 1907), em posse de um particular e que pronta e generosamente o cedeu para este tributo expositivo. Além do mais, dava-se a feliz coincidência de a última vez que tal obra fora exposta ter sido no Salão de Outono em Lisboa, no ano de 1925.

Consultados os proprietários, herdeiros do alfarrabista Américo Francisco Marques, para cederem temporariamente as três obras de Santa Rita e que nunca haviam sido expostas, aqueles anuíram prontamente, prestando assim um alto serviço à cultura portuguesa. E desta confluência de boas-vontades se conseguiu conglomerar, num evento expositivo que vem da tradição europeia novecentista - e parisiense em particular - um conjunto de quatro obras de um dos mais relevantes, enigmáticos e fascinantes artistas portugueses do primeiro quartel do século XX, ao qual somos devedores de um legado que contribuiu decisivamente para revolucionar a mentalidade cultural portuguesa do século passado.

VE: Como se explica a importância desta apresentação ao público, no que diz respeito ao conhecimento sobre a arte portuguesa do início do século XX e à de Santa Rita em particular?

JMR: Sendo Santa Rita um dos ícones indiscutíveis do movimento modernista, que o irmana com nomes de nomeada mundial, pelo seu pioneirismo, atitude intervencionista radical na estética e produção artística do tempo, permitir que o público tome contacto com a sua produção - e ainda por cima inédita ou pouco vista (caso do “Orpheu”) - reveste-se de um profundo significado, podendo despertar interesses sobretudo nas camadas escolares. Julgo que permitirá que novos estudos se possam realizar, ainda que a obra de Santa Rita, pelos imperativos da sua vontade, seja escassa. Ela tem de ser aprofundada e meditada, como tem explicado Raquel Henriques da Silva [n.d.r: historiadora de arte e diretora do Museu do Neo-Realismo].

VE: Podemos ver isto como apenas o início da descoberta dessa obra?

JMR: Podemos ver, sobretudo, o início de um caminho: tem de haver mais obras de Santa Rita, mormente em Paris, e elas têm de aparecer. Santa Rita nunca expôs em Portugal, mas a sua produção parisiense tem de estar algures. Por exemplo, era bom averiguar novamente se a obra “Ruído num quarto sem móveis”, da qual nada se sabe (há quem duvide até da sua existência), e que fora supostamente exposta na capital francesa em 1912 e com a qual eventualmente se terá estreado no Salon des Indépendents, existe ou existiu de facto… Entretanto têm aparecido outras obras, fruto de releitura da assinatura (sobretudo académicas) e esperemos que a mostra do Museu da Guarda sirva de acicate para que apareçam mais.

VE: O que se sabe sobre os desenhos agora expostos?

JMR: As três obras presentes no Museu da Guarda foram produzidas em Paris por Santa Rita e aí adquiridas directamente ao artista, pelo pintor José Campas (1888 - 1971). Tratam-se de desenhos figurativos, mas denotam claramente a sua verve modernista. Embora uma nota no verso de um deles aponte a data de 1910, parecem ser mais próximos de 1914, ano em que se efectivou a aquisição dos três exemplares, por alegadas dificuldades de Santa Rita, por certo inerentes à inopinada cessação da sua bolsa de estudos, por decisão do embaixador João Chagas. Parecem ser pois obras (ainda assim de transição) resultantes da sua adesão ao Futurismo, mau grado um nu feminino remeta para algum academismo que pode constituir um acto provocatório, na medida em que nesse mesmo registo figura o que pode ser um autorretrato do pintor, em contrapeso estilístico - o nariz aquilino, a face oblonga e os cabelos revoltos assim o parecem indicar. Outro dos desenhos pode perfeitamente vir a ser mais um autorretrato se cotejado, por exemplo, com a expressão de espanto, captada pela famosa chapa que Vitoriano Braga fixaria do artista.

Todavia, a obra que maior impacto assume é aquela que aqui se publica (abaixo), semelhando a composição dantesca presente em “Orpheu dos Infernos” com seis pequenas figuras agonizantes encimadas por uma personagem preponderante, também ela apresentando porventura uma expressão de tormento. A tentação de vermos nela um estudo da obra atrás referida é grande, mas porventura improvável.

As obras foram adquiridas por Américo Francisco Marques a José Campas em 1958. Por seu turno, o adquirente, proprietário do histórico “Antiquário do Alecrim”, foi uma personalidade que prestou os mais altos serviços ao país, salvando do anonimato ou do desaparecimento inúmeros documentos históricos, alguns remontado ao tempo de D. Sebastião.

Para já desejamos, em consonância com a vontade dos proprietários, dar enquadramento museológico – pelo menos temporário – às obras agora divulgadas, em moldes a definir, mas num espaço próprio no Museu da Guarda, honrando a memória de Américo Marques e promovendo a figura de Guilherme de Santa Rita.

Desenho - Santa Rita Pintor

Desenho - Santa Rita Pintor

Museu da Guarda

A mostra das obras antecede uma série de iniciativas dedicadas ao artista no próximo ano, como a publicação de um volume com as comunicações do colóquio da Faculdade de Belas Artes, uma biografia de Santa Rita da autoria de João MacDonald, e uma exposição retrospetiva no Museu da Guarda, “em moldes a definir”, como apontou João Mendes Rosa ao Vida Extra.

Por enquanto, o “3º Salão de Outono - Aberto para Obras” começa esta quarta-feira, 7 de novembro, pelas 18h30, e vai até dia 8 de janeiro.

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