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O autobiográfico “Idiotie” valeu a Pierre Guyotat o Prémio Médicis para melhor romance francês

A história sobre a passagem à vida adulta de um dos autores franceses mais subversivos da atualidade valeu a Guyotat o galardão literário Médicis

CHRISTOPHE PETIT TESSON

O escritor Pierre Guyotat recebeu esta terça-feira o Prémio Médicis para melhor romance francês por "Idiotie", da editora Grasset, uma história sobre a passagem à vida adulta de um dos autores franceses mais subversivos da atualidade. O romancista já havia recebido na segunda-feira o prémio especial do júri do Prémio Femina pelo conjunto da sua obra.

A escritora Rachel Kushner ganhou o Prémio de romance estrangeiro por "Le Mars Club" ("The Mars room", no original, publicado em Portugal pela Relógio d'Água com o título "O quarto de Marte"), traduzido do inglês por Sylvie Schneiter, enquanto Stefano Massini arrecadou o Prémio de ensaio por "Les Frères Lehman" (Globe).

"'Idiotie' trata da minha entrada na idade adulta, entre os 19 e os 20 anos, de 1959 a 1962", resume o autor, de 78 anos, que acaba de receber o prémio da língua francesa por todo o seu trabalho. Obra autobiográfica, "Idiotie" é levado por uma respiração que nunca enfraquece. A história começa no outono de 1958. O jovem Guyotat, com apenas 18 anos, deixou Lyon rumo à cidade de Paris, convencido de que era na capital que poderia cumprir o seu destino poético. Entretanto, seu pai, um médico, contrata um investigador particular que se lança no seu encalço.

A vida é dura. Guyotat dorme debaixo da ponte Alma. Com uma linguagem crua e esculpida, o autor Guyotat apresenta pinturas animadas de uma Paris popular que já não existe. Em 1961, depois de o seu primeiro texto ("Sur un cheval") ser aceite, Guyotat foi chamado para servir na Argélia. O seu espírito refratário não combinava com a disciplina militar, e todos os espancamentos, humilhações, clausuras são descritos em páginas que a crítica descreve como alucinantes e terríveis.

De regresso à vida civil, Guyotat permanece assombrado por tudo o que viveu e a que assistiu, desde mutilações, desmembramentos, espancamentos até à morte, torturas - bebés atirados contra as paredes, ventres de mulheres grávidas rasgados, violações. Guyotat regressa a Paris, "para a fome", mas "decidido a lutar".

No ano passado, o prémio Médicis foi atribuído a Yannick Haenel por "Tiens ferme ta couronne", na categoria romance francês, e o italiano Paolo Cognetti foi agraciado por "Les huit montagnes" (editado em Portugal pela Dom Quixote, com o título "As oito montanhas"), na categoria romance estrangeiro.

O Prémio Medicis para o ensaio foi concedido ao americano Shulem Deen por "Celui qui va vers elle ne revient pas".

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