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Este era o maior segredo de Salazar. Revelamos a droga que o ditador tomou durante 22 anos

O Vida Extra publica em exclusivo um excerto de “A Queda de Salazar: O princípio do fim da Ditadura”, de José Pedro Castanheira, António Caeiro e Natal Vaz (Edições Tinta da China). O livro chega às livrarias esta sexta-feira

Oliveira Salazar e Óscar Carmona nas comemorações do 10º aniversário do 28 de maio de 1926, em Braga. Uma quinta-feira que foi feriado nacional

Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian

Mesmo na véspera de ser internado, quando os efeitos da queda da cadeira se manifestaram de forma ineludível, Salazar manteve uma das suas rotinas: as injeções, ministradas por um enfermeiro quase dia sim, dia não. A última que registou no seu Diário data de 5 de setembro de 1968, às 10:00 – a 17.ª injeção desde que se instalara na fortaleza do Estoril, em finais de julho, e a enésima havia mais de 22 anos.

A vastíssima literatura sobre o ditador é omissa sobre o facto de Salazar ser injetado regularmente. No entanto, o seu Diário revela que nos últimos anos ele recebia uma injeção três vezes por semana – ou, se não considerarmos os fins de semana, dia sim, dia não. Estranhamente, esta rotina não era do conhecimento de vários médicos que acompanharam os últimos dois anos de vida de Salazar.

No Diário, a primeira referência a uma «injeção» é de 15 de maio de 1946. Foi certamente prescrita pelo prof. Eduardo Coelho, que na antevéspera estivera na residência oficial, na sua qualidade de novo médico assistente do presidente do Conselho.

Madalena Garcia, que decifrou e transcreveu o Diário de Salazar, contabilizou as injeções anotadas pelo presidente do Conselho: 1211. Se entre 1946 e 1954 foram simplesmente ocasionais, a partir de 1955 elas passaram a fazer parte da rotina semanal. Numa primeira fase, durante os seis anos entre 1955 e 1960, o número foi algo irregular, desde um mínimo de 24 em 1959

a um máximo de 70 em 1956, a uma média anual de quase uma injeção por semana. A sua frequência aumentou significativamente a partir de 1961, o annus horribilis do Estado Novo, que lhe exigiu uma entrega absoluta em termos mentais, psicológicos, também físicos.

A partir daí, e até à antevéspera da cirurgia, o enfermeiro passou a injetá-lo de forma sistemática e regular: 124 vezes em 1961 (54 no primeiro semestre, número que subiu para 70 no segundo) e, a partir de 1962, sempre na casa dos 130, com um pico máximo de 136 em 1964. Ou seja, uma média de cinco injeções quinzenais. Em termos estatísticos, o último ano, 1968, é atípico, uma vez que Salazar deixou de escrever no Diário a partir de 6 de setembro, ignorando-se se continuou a receber este tipo de injeções. Seja como for, é possível contabilizar 101 injeções em 1968, das quais 73 no primeiro semestre, o que permite concluir que este terá sido o ano durante o qual Salazar foi injetado mais frequentemente, a uma média muito próxima das três vezes por semana1.

Apesar das informações recolhidas no Diário, não é possível saber que produto(s) ou medicamento(s) lhe foram sendo ministrados ao longo de mais de duas décadas. A única referência encontrada no Diário de Salazar é a um opiáceo chamado Eucodal, em 5 de abril de 1956. Trata-se de um medicamento de origem alemã, distribuído em Portugal pela «Químico Farmacêutica, Lda».

Em 1968, porém, seria um outro produto. Em julho desse ano, com efeito, Salazar agradeceu ao embaixador Marcello Mathias o envio, de Paris, de mais uma caixa de injeções, que não identifica, mas sobre as quais diz que «não se vendem em Portugal». Embora «sujeito à lei dos estupefacientes», o Eucodal continuava à venda no país.

Fabricado em Darmstadt, Alemanha, pelos laboratórios Merck desde 1917, o Eucodal era considerado «um primo farmacológico da heroína», e com «efeitos melhores do que a

morfina pura»5. Salazar mencionou-o, como se disse, pela primeira e única vez, no seu Diário em 5 de abril de 1956, sublinhando a palavra Eucodal.

«Provavelmente foi receitado pelo meu pai», para o aliviar de «dores muito fortes» causadas por uma «ciática crónica», diz Eduardo Macieira Coelho, de 87 anos, professor reformado da

Faculdade de Medicina de Lisboa. «Como se sabe, a ciática tem desenvolvimentos dolorosos e ele devia ter dores valentes e incómodas, na medida em que passava a maior parte do dia sentado e sem fazer exercício nenhum.» Para a ciática, «o medicamento habitual na altura era a vitamina B1, que era um paliativo. Mas certamente que a ciática foi piorando e terá saído então para o Eucodal – estou sempre a falar de hipóteses, porque o meu pai nunca me falou de Eucodal. Mas três vezes por semana é uma grande dose», até porque «o Eucodal cria dependência».

Macieira Coelho é, tal como o pai, cardiologista. «Nós tínhamos sempre ampolas de Eucodal connosco, na nossa mala, para levar para casa dos doentes. Em casos de situações agudas de enfarte de miocárdio e dores violentíssimas no peito, dávamos uma injeção. Era imediato. E muitas vezes, se fosse necessário, era mesmo uma injeção intravenosa. A ideia era tirar a dor e a ansiedade ao doente e pô-lo a dormir. Depois vinha o resto», recorda Macieira Coelho. «Dei injeções destas inúmeras vezes. E o meu pai ainda mais que eu. Era uma arma fundamental. Na altura, a medicina era completamente diferente, tínhamos muito poucos produtos à nossa disposição.»

«Não conheço o Eucodal pelo nome comercial. No meu tempo já não era assim tão comum como medicação ambulatória de urgência», diz a também cardiologista Fátima Pina Cabral, formada em 1971, um ano depois da morte da Salazar. O seu princípio ativo, a codeína, continua a ser, contudo, «muito usado como analgésico/sedativo para tirar dores intensas (oncológicas, pós-cirúrgicas, etc..) e tosses secas persistentes». Segundo esta

especialista, «pode ser usado pontualmente na dor de enfarte do miocárdio, com as vantagens acessórias de diminuir o trabalho cardíaco na insuficiência cardíaca aguda e de sedar o doente», mas «não tem indicação, e que eu saiba nunca teve, para ser utilizado regularmente (em contexto cardiovascular) e muito menos dia sim, dia não». A codeína tem ainda outro efeito: «Como todos os derivados da morfina, pode dar sensação de bem-estar e ser euforizante, colocando a autoestima muito alta.» «E estas características», acrescenta Fátima Pina Cabral, «são altamente viciantes.»

O médico António Barros Veloso, autor de vários livros sobre a história da medicina em Portugal, nascido em 1930, acha «estranha» a regularidade com que Salazar tomaria Eucodal e que essa aparente dependência «nunca tenha transpirado»: «Era natural que se soubesse, e nunca se soube. São mistérios que ficam para sempre.» Para a ciática, o mais indicado, segundo Barros Veloso, seria dar vitamina B12, mas «em situações agudas» o Eucodal tira a dor: «É como a morfina, é muito parecido.» Quanto ao professor Eduardo Coelho, o médico assistente de Salazar, Barros Veloso considera que «era um homem esclarecido e competente, e não corria riscos de receitar medicamentos que pudessem ser prejudiciais».

EUCODAL: O MEDICAMENTO FAVORITO DE HITLER

A história do Eucodal (Eukodal, em alemão) é, de facto, muito tóxica: no segundo semestre de 1943, aquele estupefaciente tornou-se o medicamento favorito de Hitler. De um dia para o outro, quando o Terceiro Reich já estava em fase de derrocada, o führer adquiriu uma nova vitalidade. A influência do Eucadol no comportamento de Hitler só seria, contudo, descoberta e exposta mais de meio século depois, pelo romancista alemão Norman Ohler.

Nos diários de Theodor Morell, o médico pessoal de Hitler, há muitas referências a injeções de Eucodal ao «doente A» (nome

de código do führer). Mas, segundo a investigação de Ohler, os peritos norte-americanos que estudaram o passado clínico de Hitler transcreveram mal a caligrafia do médico. Em vez de «Eukodal», registaram «Enkadol», um nome que não constava da lista de narcóticos, e ignoraram essa pista.

Consumidor habitual de esteroides, hormonas e vitaminas, nas vésperas de uma importante cimeira com Mussolini, em julho de 1943, Hitler «parecia apático, andava encurvado e não falava com ninguém». No encontro com Mussolini, em San Fermo, no norte de Itália, estava em causa o futuro da aliança entre os dois países, e a disposição do ditador italiano de continuar ou não a guerra. O Dr. Morell sabia que, ao fim de duas ou três semanas de consumo regular, o Eucodal criaria dependência física, mas, para grandes males, grandes remédios, terá pensado o médico. Depois da primeira injeção de Eucodal, intravenosa, verificou-se uma «transformação imediata» no «doente A». Para surpresa de todos, no encontro com Mussolini, «Hitler falou durante três horas seguidas» e o ditador italiano «não teve uma única oportunidade para falar». Resultado: a Itália iria continuar em guerra e Hitler regressou à Alemanha triunfante. «Führer em boa forma e bem. Não houve nenhuma espécie de queixa no voo de regresso. À noite, no Obersalzberg, o führer declarou que o sucesso do dia ficava a dever-se a mim», anotou o Dr. Morell.

Mais de um ano depois, Hitler continuava a tomar Eucodal, dia sim, dia não, «o ritmo típico de um dependente», refere Ohler, citando o diário do médico entre 23 e 29 de setembro de 1944. E assim terá continuado até duas semanas antes do Natal, quando bombardeamentos da aviação aliada destruíram grande parte das instalações fabris da Merck em Darmstadt.

O escritor norte-americano William Burroughs, figura influente entre os mais conhecidos autores da beat generation, refere o Eucodal (ou Eukodol) na lista dos dez derivados do ópio que experimentou durante 12 anos. Numa carta publicada numa revista científica britânica, Burroughs salienta que,

independentemente da forma como eram ministrados (injetados, snifados, fumados ou até em supositórios), «o resultado era o mesmo: dependência».

NINGUÉM SABIA DAS INJEÇÕES

Tanto quanto é possível saber, o enfermeiro foi quase sempre o mesmo. Chamava-se João Rodrigues Merca e era «o enfermeiro de confiança» de Eduardo Coelho. «Conheci-o muito bem. O João Merca já trabalhara com o meu pai no Hospital de Santa Marta», recorda Eduardo Macieira Coelho, que seguiu a mesma especialidade e herdou o consultório particular. «O pai recomendava sempre o Merca aos seus doentes. Mais tarde ele até abriu um posto de enfermagem.» Foi em janeiro de 1965, no n.º 56 da Rua do Conde de Redondo, em Lisboa, com o nome de Centro de Enfermagem de Santa Marta. Nascido a 2 de dezembro de 1918, em Canas de Sabugosa (concelho de Tondela), João Merca fez o curso da Escola Artur Ravara e foi enfermeiro-subchefe dos Hospitais Civis de Lisboa.

A farta literatura historiográfica e ficcionada sobre Oliveira Salazar é omissa quanto a estas injeções. Nenhum dos seus biógrafos lhes faz referência. Tão-pouco Eduardo Coelho, nas suas memórias de médico assistente. Contactados, três dos médicos que acompanharam Salazar após a cirurgia ignoravam pura e simplesmente este dado clínico. «Não sei de nada», limitou-se a dizer o neurocirurgião Jorge Manaças, que não escondeu o seu espanto. «Não sabia», afirmou, por seu turno, Macieira Coelho, igualmente surpreendido. «Está a dar-me uma novidade», declarou Maria Cristina da Câmara. «Só conheci o Dr. Salazar nessa altura e só atuei como médica naquele período crítico. Mas se era um enfermeiro, devia ser certamente uma injeção intramuscular, porque, se fosse intravenosa, teria de ser um médico.»

Jorge Manaças fazia parte da equipa de neurocirurgia chefiada por Vasconcelos Marques, que procedeu à cirurgia. Cardiologista como o pai, e seu colaborador, Macieira Coelho

passou a acompanhar Salazar, tendo sido um dos três médicos que assinaram o eletrocardiograma que confirmou a morte do ditador, a 27 de julho de 1970. Maria Cristina da Câmara foi a anestesista durante a cirurgia e acompanhou toda a fase pós-operatória, vivendo praticamente no hospital, num quarto vizinho ao de Salazar.

Para além da referência pontual ao Eucodal, ignora-se a(s) substância(s) ou medicamento(s) injetado(s). Eduardo Coelho, o médico assistente, faleceu em 1974 e nas suas memórias não dá qualquer informação. «O meu pai era de um rigor absoluto relativamente ao que considerava ser o segredo médico», observa Macieira Coelho; «foi certamente essa a razão pela qual nunca me falou nisso.» Também o enfermeiro João Rodrigues Merca faleceu, já em 2001, com 82 anos. A filha única, Maria João Merca Ramalho Lima, de 70 anos, lembra-se do pai a «meter-se no seu Fiat para ir a S. Bento», mas não fixou a regularidade desse serviço nem o conteúdo das injeções: «O meu pai era uma pessoa muito reservada, nunca falava dessas coisas.» Salazar não era a única pessoa famosa que ele tratava, recorda a filha, mencionando o artista plástico Almada Negreiros e a primeira mulher do atual secretário-geral da ONU, Luísa Guterres. Quanto aos medicamentos, só se recorda de um, no auge da tuberculose, nos anos 40 e 50: «Todas as noites, depois do trabalho no hospital, ele saía para dar injeções de penicilina.»

Uma terceira pessoa que estaria a par das injeções seria a governanta, Maria de Jesus Freire, também já falecida, em 1981. «Lembro-me de ela dizer que ia lá de vez em quando um enfermeiro dar umas injeções a Salazar, mas não fazia ideia que era uma coisa com tanta regularidade», diz Fernando Dacosta, um dos jornalistas que melhor conheceu Maria de Jesus, com quem falou «muitas vezes» antes e depois da queda do presidente do Conselho. Num dos seus livros, o jornalista conta que lhe foi apresentado «na segunda metade da década de sessenta», quando a agência internacional em que trabalhava o destacou para fazer a cobertura

da Assembleia Nacional e do Conselho Ministros: «‘Ah, é o novo recruta da informação, seja bem-vindo’, exclamou Salazar.» Cinquenta anos depois, Dacosta recorda-o como «um homem elegante e sedutor», mas também «muito infeliz e pessimista».

Franco Nogueira, ao relatar uma das cíclicas crises de saúde (em 1960) do chefe do Governo, conta que os médicos se limitaram a prescrever-lhe «tónicos». Ribeiro de Meneses, como se verá adiante, identifica vários medicamentos que o embaixador João António de Bianchi enviou de Washington, em 1946, um gesto que parece ter sido da sua exclusiva iniciativa e sem continuidade. A adensar ainda mais o mistério vem a informação, dada pelo próprio Salazar, segundo a qual em 1968 a injeção que levava não existia no mercado português. Vem numa carta de 13 de julho de 1968, enviada ao embaixador de Portugal em Paris, Marcello Mathias. «Recebi já pela segunda vez as injeções que lhe havia pedido e não se vendem em Portugal», escreve Salazar, agradecido. «Fico assim servido para muitas semanas. Simplesmente não sei quanto custaram as caixas enviadas e desejava satisfazer a importância, que não pode ser suportada pelo embaixador de Portugal.»

Na correspondência entre Salazar e Mathias, não é identificada a substância das injeções nem a respetiva indicação terapêutica. E Marcello Duarte Mathias, um dos filhos deste último, nada sabe. «Desconhecia essa história. E acho extraordinário que o Franco Nogueira, tão exaustivo no seu trabalho, nada diga. Foi realmente uma pena o meu pai não ter escrito as suas memórias. Bem o tentei convencer, mas não o consegui demover nas suas resistências.»

AS DOENÇAS E ACHAQUES DE SALAZAR

Já em Coimbra, no inverno de 1914 para 1915, Oliveira Salazar «padecia de fortes enxaquecas, não suportava a luz do dia, passava longas horas estirado na cama no seu modesto quarto. Era um desconforto; tinha a sensação de isolamento; e o seu ânimo atravessa uma fase de depressão», conta Franco Nogueira. São «os

primeiros sintomas da doença que o há de acompanhar toda a vida», escreveu o psiquiatra José Gameiro num estudo pioneiro sobre a saúde mental de Salazar, apresentado em 1986.

O primeiro problema de saúde de Salazar, nos mais de 40 anos que esteve no poder, foi a fratura de um membro. Em 1929, era ministro das Finanças quando partiu uma perna. Estava no Ministério, «em conversa com o seu amigo José Nosolini, escorrega num tapete que desliza no encerado, cai, fratura a perna direita». Levado para o consultório de Francisco Gentil, foi radiografado e internado no Hospital da Ordem Terceira de São Francisco, na Rua de Serpa Pinto. Cirurgião e ex-diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Gentil fundara em 1923 o Instituto Português para o Estudo do Cancro (atual Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil). Salazar permaneceu cerca de três meses no hospital. Franco Nogueira assevera que no seu quarto, onde foi instalado um telefone, efetuaram-se várias reuniões do Conselho de Ministros e se ultimou o segundo orçamento do então ministro, para o ano de 1929-193019.

Já presidente do Conselho, no final de 1934 começou por se sentir «atormentado de dores nos olhos, que lhe perturbam a visão». Dias depois, estava «francamente doente. Afligem-no tonturas, perde o sentido de orientação e equilíbrio, fica de cama», tendo sido chamado Borges de Sousa, «oftalmologista eminente». As eleições legislativas estavam marcadas para 16 de dezembro: as primeiras sob a vigência da Constituição de 1933, recentemente plebiscitada, e as primeiras realizadas no país desde 1925. Líder da União Nacional, Salazar ainda participou pontualmente na campanha, mas não foi votar. Explica o biógrafo que o esforço «provocara uma recaída em Salazar: naquele domingo não foi à missa, nem votou, nem saiu de casa». Voltou a recorrer a Francisco Gentil, que, na manhã de 15 de dezembro, véspera das eleições, lhe fez um raio-X.

Os problemas na vista eram frequentes e agudizaram-se em 1942, a que se juntou a insónia, tida por «insuportável». A conselho médico, «experimenta sucessivas drogas; mas em pouco, por habituação, se tornam inúteis. É grande consumidor de medicamentos: tem conta permanente nas farmácias Rêgo e Gama, à Calçada da Estrela». Na sequência das eleições de novembro de 1945, Oliveira Salazar atravessou uma grave crise de saúde, que se prolongou durante largos meses. Pouco antes, revelara sintomas indiciadores de um esgotamento. O que não surpreende: desde 1936, com o início da Guerra Civil de Espanha, o presidente do Conselho decidira chamar a si, em regime de acumulação, as três principais pastas da governação: não apenas o Ministério das Finanças, que já conhecia e dominava, mas também, num regime de interminável interinidade, as pastas da Guerra e dos Negócios Estrangeiros. Um regime que entrou pelos anos da Segunda Guerra Mundial, só se libertando Salazar das Finanças em agosto de 1940 (para onde nomeou Costa Leite), do Ministério da Guerra em setembro de 1944 (quando entregou a pasta a Santos Costa) e do Palácio das Necessidades em fevereiro de 1947 (para onde nomeou José Caeiro da Mata). Finda a Segunda Grande Guerra, com a vitória dos aliados, as «velhas enxaquecas», de que há muito padecia, passaram a causar-lhe um «incómodo redobrado».

No dizer do principal biógrafo, «mais do que nunca, mortificam-no os olhos, exaustos de aplicação sem mercê; e afligem-no tonturas prolongadas, e a crença de que não pode andar sem o apoio de alguém, nem permanecer de pé sem se arrimar a uma parede, a um móvel». O parecer dos médicos é claro: «Trata-se de mal para que o repouso é a receita mais eficaz.» Um mal que invade o plano psicológico, sentindo «por tudo e por todos uma repugnância, uma saturação, uma misantropia invencível».

Fortemente pressionado pelos principais vencedores do conflito mundial, e cada vez mais contestado por largos setores da população, sedentos de liberdade, o Governo de Lisboa aceitou realizar eleições antecipadas. A Assembleia Nac

na totalidade pelo partido único, foi dissolvida em outubro e as eleições tiveram lugar a 18 de novembro.

A Oposição, mobilizada em torno do Movimento de Unidade Democrática (MUD), desistira à boca das urnas, pelo que a União Nacional fez eleger a totalidade dos 120 deputados. A campanha eleitoral, contudo, confirmara a enorme vitalidade do MUD, que reunia praticamente a totalidade dos setores antissalazaristas, ainda esperançados em que a recente derrota do nazi-fascismo na Guerra não deixaria de ter efeitos também na Península Ibérica, propiciando a queda das ditaduras de Franco e Salazar. No termo da campanha, seguro da vitória e confiante na sua máquina eleitoral, Salazar desafiara a Oposição a ir às urnas. Foi numa célebre entrevista conjunta ao Diário de Notícias e a O Século, a 14 de novembro de 1945, em que afirmou: «Considero as próximas eleições tão livres como na livre Inglaterra.» Sem quaisquer garantias de que assim fosse, e apesar de ter galvanizado o país, o MUD recusou-se a ir às urnas e a caucionar umas eleições que, afinal, quase nada tinham de livres e democráticas.

Nas suas memórias, Marcello Caetano diz que Salazar ficou «dececionado» com a resposta do país nas eleições. A adesão aos apelos do MUD fora estrondosa: não só a abstenção disparara, de 13,4 por cento para 46,2 por cento, como a UN perdera mais de 90 mil votos, não chegando ao meio milhão, num universo extremamente reduzido, de pouco mais de 900 mil eleitores. Comenta Caetano: «Ao ver como as realidades estavam longe das suas aspirações e que eram os ‘pequeninos despeitos’ que continuavam a reger a opinião, invadiu-o uma tristeza profunda que progrediu até à depressão: e durante muitos meses foi um melancólico.» Mais ainda: a partir das eleições manifestou-se «uma espécie de neurastenia depressiva, com falta de confiança em si próprio e frequentes declarações feitas aos íntimos do seu desejo de abandonar o Governo», a par de manifestações de «ciúme» relativamente a «todos aqueles que visse gozarem de favor público e nos quais adivinhasse atuais ou possíveis competidores».

Segundo Ribeiro de Meneses, a depressão de Salazar, que «coincidiu» com a sua «relação sentimental mais importante, porque pública» (referência a Carolina Correia de Sá, filha do visconde de Asseca), não foi «uma crise passageira». Durou largos meses, provocando «dores de cabeça e um agravamento da sua insónia crónica» e, como o próprio se queixou, «grandes tonturas». «Tentaram-se muitos remédios para o arrancar àquele torpor e amigos e colaboradores escreviam» para o animar, dar conselhos ou até sugerir medicamentos que o pudessem ajudar. Assim aconteceu, em meados de 1946, por exemplo, com o médico e escritor Júlio Dantas, então à frente da embaixada no Rio de Janeiro; com o embaixador em Madrid, o ex-ministro da Educação, Carneiro Pacheco; e com o amigo de sempre, o cardeal-patriarca Gonçalves Cerejeira.

O psiquiatra José Gameiro é perentório: o chefe do Governo «tinha depressões evidentes», com «fases de completa abulia, em que não tinha energia para nada». «Mas, naquela altura», salienta, «as doenças psiquiátricas tinham uma conotação complicada.» «Diagnosticar uma depressão não era a mesma coisa do que hoje, e muito menos a respeito de Salazar.» Os próprios antidepressivos, hoje tão comuns na vida de muitas famílias, só apareceram no final da década de 1950. Já havia, no entanto, o Eucodal, «um tipo de estimulante que se dava a pessoas com neurastenias e que, nesse aspeto, funcionava como antidepressivo».

Mesmo mais tarde, nos meios académicos de esquerda, a disponibilidade para encarar essa faceta de Salazar também não abundava: «Falar das emoções de Salazar não era fácil», recorda Gameiro acerca da sua participação no colóquio sobre o Estado Novo realizado na Gulbenkian, em 1986, em que apresentou o estudo sobre a saúde mental do ditador. «A sociologia portuguesa era muito marxista, e eu, que até tenho uma forte história de esquerda, fui muito criticado por estar a falar de Salazar como se ele fosse um ser humano, que tinha depressões.»

Excerto do capítulo 2: “As misteriosas injeções do enfermeiro Merca”

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