Perfil

Vida Extra

A genial obra de Roberto Bolaño continua a expandir-se com novos textos inéditos

São peças acrescentadas, postumamente, a um puzzle (o seu universo literário) que se deseja incompleto

Do espólio de Roberto Bolaño saem mais três notáveis narrativas de um dos mais importantes escritores latino-americanos 
das últimas décadas

Do espólio de Roberto Bolaño saem mais três notáveis narrativas de um dos mais importantes escritores latino-americanos 
das últimas décadas

Quando lhe foi diagnosticado um problema hepático incurável, em 1992, a vida literária de Roberto Bolaño, então com 39 anos, sofreu uma extraordinária aceleração. Até esse momento, era conhecido essencialmente como poeta e provocador nato (tinha o hábito de sabotar sessões literárias), além de fundador do “infrarrealismo”, um movimento de pura rebeldia estética que o escritor viria a caricaturar mais tarde no romance “Os Detetives Selvagens”. Interessava-lhe mais viver a euforia de um caos boémio do que deixar obra de relevo.

Durante a última década de vida, porém, o quadro inverteu-se. No recato de Blanes, pequena cidade da Costa Brava catalã, entregou-se à narrativa ficcional com a sofreguidão de quem sabia ter os dias contados. De 1993 a 2003, data da morte precoce (à espera de um transplante de fígado que nunca chegou), publica 11 livros — entre romances, volumes de contos e novelas —, que logo o erguem ao patamar dos mais importantes autores de língua espanhola.

Provavelmente ninguém escreveu tão bem como Bolaño sobre o esfumar das ilusões revolucionárias latino-americanas, experiências descritas com um misto de fervor lírico, desencanto lúcido e visceral melancolia. Sempre com uma consciência aguda de que a literatura está condenada a morder a própria cauda, porque os livros nascem sempre de outros livros, o leitor voraz antecede sempre o escritor loquaz.

Ao contrário do que sucede com outros ficcionistas, os inéditos póstumos de Bolaño nunca são acontecimentos menores ou marginais. Na verdade, emergem de uma torrente criativa extraordinária (materializada em milhares de páginas) que só não nos esmagou mais cedo devido aos condicionalismos do mundo editorial, incapaz de dar vazão a tanta verve. Além do gargantuesco “2666”, essa obra-prima crepuscular, foram trazidos sucessivamente à luz volumes de textos aparentemente díspares mas que remetem, na maior parte dos casos, para situações e personagens de obras anteriores, funcionando assim como peças perdidas de um puzzle — a grande visão bolañiana do mundo — que nunca deixou de se expandir, em círculos cada vez mais amplos, e por isso estava destinado à incompletude.

Volta a ser o caso com este “Sepulcros de Cowboys”, composto por três narrativas resgatadas pela viúva de Bolaño, Carolina Hernández, no disco duro do computador da família e em disquetes. A primeira, ‘Pátria’, parte de elementos autobiográficos para fazer a crónica elíptica do impacto do golpe de Estado de Pinochet na vida de um aspirante a poeta, Rigoberto Belano, um protagonista meio esquivo, meio turvo, cujo percurso parece desfazer-se no próprio ato da rememoração.

A segunda história, que dá título ao livro, revisita a juventude de Arturo Belano (o mais explícito dos alter egos do autor), num retrato em movimento que o leva do Chile ao México e de volta à pátria, com passagem pelo Panamá, detendo-se depois no relato de uma amizade improvável (‘O Verme’), magnífica vinheta que termina abruptamente, como quem corta de repente um fio ainda por tecer, à semelhança do conto de ficção científica sobre formigas alienígenas que Belano, escritor secreto, dá a ler a um companheiro de viagem. No segmento final, Arturo faz parte de um grupo de esquerdistas que sai à rua para tentar salvar a revolução chilena, só para descobrir que se esqueceu da contrassenha combinada com os camaradas, falha individual em si mesma insignificante mas que já prenuncia todas as futuras derrotas coletivas.

A melhor, mais inventiva e mais coesa das três narrativas é a última, ‘Comédia do Horror de França’, escrita entre 2002 e 2003 (as outras são de meados dos anos 90). Em dia de eclipse solar, um “sol negro” que cega ou enlouquece os mais desprevenidos, Diodoro Pilon, poeta sem obra, mas com lugar cativo em tertúlias literárias, volta a pé para casa quando ouve um telefone a tocar numa cabina telefónica vazia. Primeiro, hesita. Depois, atende. E é como se entrasse noutra dimensão. Do lado de lá, uma voz fala-lhe de uma espécie de sociedade secreta literária, o Grupo Surrealista Clandestino, que recruta membros cirurgicamente, ligando para qualquer parte do mundo. A sede fica em Paris, nas catacumbas, junto aos esgotos, atrás de uma sucessão de portas só abertas por jogos de chaves entregues pessoalmente, em tempos, por André Breton. Ou seja, Bolaño arrasta-nos, mais uma vez, para o labirinto da literatura, o seu território: “É como um romance (...) que não começa pelo princípio. (...) As suas primeiras páginas estão noutro livro, ou numa ruela onde se cometeu um crime, ou num pássaro que observa um grupo de crianças e que não o veem a ele.”