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Margaret Atwood, criadora do distópico “Handmaid's Tale”, vem ao Porto falar do futuro

De 4 a 10 de novembro, o Porto coloca-se de novo no centro do debate internacional. Conheça os destaques do Fórum do Futuro deste ano

O momento em que se percebe o lugar de conforto já conquistado por um fórum centrado no pensamento como o organizado pela cidade do Porto é quando, tal como acontece este ano porventura pela primeira vez, não há necessidade de assentar a promoção da iniciativa na presença de nomes muito mediáticos junto do grande público para, ainda assim, apresentar uma proposta aliciante, marcada por uma grande consistência e assente na ideia de, a partir das experiências de um passado situado na antiguidade clássica, discutir o tempo futuro. Ainda assim, destaca-se a presença da escritora Margaret Atwood, do arquiteto japonês Toyo Ito, Pritzker 2013, do astrofísico Michel Mayor, ou de Harrison Birtwistle, compositor residente da casa da Música em 2017.

Como dizia hoje Guilherme Blanc, adjunto de Rui Moreira e de alguma forma diretor ou curador do Fórum, a edição deste ano constituirá “um espaço de indagação sobre as várias formas como a antiguidade se manifesta hoje, questionando o mito do legado clássico”. O desafio será problematizar esse legado, “provocá-lo, partindo de um conjunto de questionamentos sobre os sentidos e as formas das ágoras de hoje e sobre a questão do tempo enquanto veículo cíclico do saber, que é uma questão basilar” desta iniciativa.

Fica, então, uma questão que poderá vir a encontrar resposta ao longo dos seis dias de conversas e que passará por tentar descobrir porque é que não conseguimos libertar-nos do mito e do canon para nos compreendermos e compreendermos o mundo.

Há manifestações da antiguidade na cultura contemporânea, como sublinhava Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal, para quem esta reflexão “sobre o nosso tempo e principalmente sobre o futuro, cruzando disciplinas artísticas e temas como a memória, o corpo, o mito e também a liberdade”, constitui, de alguma forma, um importante “statement político da cidade”.

Com um orçamento reforçado em relação a 2017, passa de €197 mil para €225 mil, o Fórum, subordinado ao tema “Ágora Club”, terão mais de meia centena de convidados de 17 países e terá uma abertura em três atos, marcados para o dia 4 de novembro, que se centrarão, sublinhou Guilherme Blanc, na “arqueologia da memória, do corpo e do pensamento político, a partir da antiguidade clássica, mas para além dela”. Começa com o artista libanês Ali Cherri, a partir das 16 horas no teatro Rivoli. Vem falar da lama enquanto organismo com um poder material e metafórico sobre os humanos. Num segundo momento, o artista Guan Xiai, através do vídeo “Hidden Park”, aborda os temas do corpo e da humanidade. Por fim, Nadya Tolokonnikova, líder do grupo punk russo Pussy Riot. Licenciada em filosofia clássica, vai abordar, numa sessão intitulada “Ativismo artístico na Grécia antiga”, um conjunto de obras canónica do pensamento clássico que preconizam o apelida de filosofia prática.

Com dias sempre muito preenchidos por conversas ou performances desafiantes, alguns destaques vão para a presença, no dia 5, segunda-feira, a partir das 19h no Teatro Rivoli, do filosofo italiano Maurizio Lazzarato, que vai falar do “Império da dívida”. Fala da dívida, refere Blanc, “a partir da ideia de que a dívida é também uma arma de construção imperial. Pensa na dívida como mecanismo de dominação e exploração de classe, o que faz a partir de uma crítica ao capitalismo”.

À noite, outro grande momento em perspetiva, com Michel Meyer. Val falar de “Pluralidade de mundos no Cosmos: um sonho clássico da humanidade. Uma realidade moderna”. Centrar-se-à em mecanismos de observação estelar e cósmica, partindo de instrumentos ancestrais até equipamentos contemporâneos. Isto sem esquecer o pensamento e a filosofia de homens como Epicuro, por exemplo, que falavam desta pluralidade de mundos. Michel Mayor foi o primeiro astrofísico a detetar um planeta fora do sistema solar.

Quarta-feira, dia 7, o Grande Auditório do Rivoli recebe, a partir das 17 horas, o arquiteto japonês Toyo Ito, Prémio Pritzker de arquitetura em 2013. Vem falar de “Nova arena pública/Novo espaço público”. É a primeira presença em Portugal daquele que é visto como um dos mais importantes arquitetos japoneses contemporâneos. A sua conferência não deixará de abordar o tema das grandes ruínas contemporâneas, seja devido às guerras, seja em consequências de grandes catástrofes. De resto, o próprio Toyo Ito está muito envolvido nos processos de reconstrução em curso no Japão após o grande tsunami que afetou aquele território.

A escritora Margaret Atwood, autora, entre muitos outros, de livros como “The Handmaid’s Tale” (que originou uma série televisiva), subirá ao palco principal do Rivoli na quinta-feira, dia 8, a partir das 21h30. Na sua obra tem trabalhado muito a questão do mito clássico, e é disso mesmo que vai falar numa conferência intitulada “Mitos na minha obra”.

O Forum termina no sábado, também com uma sessão tripla, após a qual atuará o coletivo de seis músicos “Candeleros”, originários de várias regiões da Colômbia e Venezuela

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