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Exclusivo Vida Extra: Entre connosco nas exposições de Schiele e Basquiat em Paris

São dois nomes maiores da arte do século XX e estão juntos em Paris numa exposição que reúne 120 obras de cada um deles. Acabam de inaugurar a temporada de outono do catálogo artístico da Fundação Louis Vuitton. Estivemos lá, falámos com o curador Dieter Buchhart e mostramos o vídeo e as imagens que interessam

Vídeo FLV Basquiat Schiele

Pode não parecer nada evidente, mas há várias coisas que unem o pintor vienense Egon Schiele, que viveu na primeira década do século XX, ao artista negro nova-iorquino Jean-Michel Basquiat que marcou com a sua obra fulgurante os anos oitenta do mesmo século.

Ambos produziram um trabalho singular e radical fora dos cânones do seu tempo e ambos tinham apenas 28 anos quando morreram, conseguindo em apenas uma década realizar uma vasta e intensa obra que lhes deu um lugar incontornável no mundo da arte.

Mas, como revela Dieter Buchhart, o curador destas mostras, existem outros fatores que os aproximam. “Cada um à sua maneira representa uma cultura de juventude e rebeldia no contexto das épocas em que se inserem, criando uma linguagem própria e usando o corpo artístico como defesa da hostilidade do mundo exterior”, diz-nos.

Schiele e Basquiat têm sido dois nomes recorrentes no trabalho de Dieter Buchhart, também ele vienense. Além de ter publicado vários livros sobre os artistas, foi ele o responsável pela exposição “Basquiat: the Unknown Notebookes”, que se realizou em abril de 2015, no Museu de Brooklyn, o lugar onde Basquiat cresceu e se inspirou para parte da sua obra.

Apesar deste artista ser um nome forte da coleção de arte contemporânea da Fundação Louis Vuitton, esta é a primeira vez que uma mostra desta dimensão é realizada em Paris, e esta é também a primeira vez que o especialista colabora com a fundação.

A proposta de realizar uma exposição que reunisse em simultâneo as obras dos dois artistas, exatamente no ano em que Egon Schiele comemora o centenário da sua morte, começou a desenhar-se há cerca de três anos, depois de várias conversas que foi tendo com a diretora artística da fundação, Suzanne Pagé.

Embora tenham pensado seguir uma linha de montagem que os unisse no mesmo espaço, rapidamente concluiram que “a dimensão da escala do trabalho de Basquiat iria entrar em conflito com Egon Schiele, que produziu sobretudo pintura e desenhos numa escala muito mais intimista”, justifica o curador, adiantando que assim sendo “seria muito mais interessante organizar duas exposições autónomas para dar ao público uma noção mais completa da vastidão da obra de cada um”.

Basquiat e Schiele e a cultura de juventude

Dieter Buchhart considera que, trinta anos depois da sua morte, o artista nova-iorquino tornou-se num dos maiores ícones de cultura urbana da juventude deste tempo. E uma das razões para isto acontecer, aponta, tem precisamente a ver com a transversalidade da obra plástica de Basquiat, pela forma como ele usava todos os materiais que disponha em seu redor, usando vários layers de comunicação com o público.

“Produziu uma espécie de cultura copy-paste, antes do seu tempo”, explica. “A primeira vez que tive esta perceção foi em Nova Iorque, na inauguração da loja da marca de skates Supreme. Estava com o meu filho de 14 anos numa longa fila de jovens para entrarmos da loja, quando reparei num rapaz da América do Sul que tinha três tatuagens do braço. Uma delas era o “Radio Baby” do Keith Haring, outra a “Coroa” do Basquiat.

“Depois disso investiguei este tema e constatei que ambos têm uma popularidade entre a cultura de juventude contemporânea, o que é uma coisa incrível”, conta. “No caso de Keith Hering, consigo perceber o porquê. Tem tudo a ver com a cena emoji. No entanto Basquiat é mais complexo, e o seu trabalho muito mais político. Abarca uma grande de diversidade e penso que seja isso que o liga aos jovens de hoje.”

Também para Egon Schiele as questões mais profundas da natureza humana — o medo, a angústia, o frio existencial — foram as linhas que o guiaram na expressão do seu trabalho, usando o seu corpo como modelo de exploração artística. É precisamente a maneira como “ele se usou no autorretrato” que o curador encontra pontos de contacto com a cultura contemporânea.

“Por estranho que pareça, faz-me pensar nas selfies dos nossos dias”, refere. “Schiele reinventa-se a partir das poses que vai experimentando e serve-se do espelho para explorar as emoções que quer mostrar. Os seus autorretratos são exercícios de representação, tal como as selfies o são para muitos jovens artistas de agora. Claro que a consciência é muito diferente, mas há uma atualidade nestas questões e são também essas que o público apanha”, desvenda.

As exposições ocupam os cinco pisos do edifício que o arquiteto Frank Gehry projetou entre as árvores do Bois de Boulogne, numa estrutura e composição feita através de placas de vidro sobrepostas. Desde 2014 que a Fundação Louis Vuitton — um nome que se associa sobretudo à moda e a produtos de luxo — tem organizado inúmeras exposições, muitas delas construídas a partir de obras da sua vasta coleção de arte contemporânea.


As exposições estão abertas ao público na Fondation Louis Vuitton, em Paris, até 14 de janeiro de 2019.

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