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Vida Extra

Apaixonado pelo vinil e pelas cassetes? Eles estão de regresso (e em força)

Começa a surgir um lado B no mundo desmaterializado da música, recuperando a nostalgia dos formatos analógicos. À semelhança do vinil, também a cassete renasceu para uma segunda vida. Fomos conhecer a única fábrica portuguesa, que produz cassetes para todo o mundo

Na era da desmaterialização, na qual o formato digital impera, começa a surgir um lado B, pautado por uma crescente procura pelos suportes analógicos. A atração fatal pelos artigos “vintage” verifica-se também na música, atualmente dominada pelo streaming. Primeiro, com o apetite dos melómanos a ser aguçado pelo fascínio suscitado pelo vinil, mas, mais recentemente, também pelas cassetes.

No ano passado, de acordo com dados da “Nielsen Music”, foram vendidas 129 mil cópias nos Estados Unidos, mais 74 mil do que em 2015. Depois do declínio, a cassete regressa pronta para uma segunda vida, colocada novamente na ribalta por edições recentes de álbuns de Justin Bieber, Eminem ou The Weeknd.

Surgidas na década de 1960, representava um suporte menos dispendioso e mais manuseável, potenciando a divulgação de bandas de punk e de metal, arredadas do circuito comercial, sempre com um som “granulado” associado ao meio mais alternativo. Mais tarde, a música popular fez das cassetes rainhas nas feiras e nas estações de serviço. Atualmente, as vendas são bem mais escassas, mas cresceram nos últimos anos, e em Portugal, na cidade da Maia, encontra-se ainda no ativo a Edisco, única fabricante na Península Ibérica e com um vasto mercado a nível europeu.

A cassete representa, nos dias correntes, um objeto colecionável, como um souvenir ou uma recordação palpável, capaz de transportar o ouvinte para um outro tempo. E é precisamente isso que acontece quando entramos nas instalações da Edisco, criada em 1979, atualmente gerida por Armando Cerqueira, filho de um dos sócios fundadores. Há cassetes por toda a parte – e das mais variadas cores (vermelhas, pretas, verdes, amarelas, cor-de-rosa, entre outras), porque o tempo trouxe também essa novidade.

Atualmente, a Edisco já não funciona como editora, mas continua a assegurar o serviço de conversão para o formato analógico. A cassete sempre foi, e continua a ser, a aposta forte, a joia da coroa de uma empresa que nunca se virou para o vinil. A forma de as produzir pouco mudou e o encanto permanece inalterável.

“Éramos um dos grandes a fabricar em Portugal e fomos fazendo o percurso quase até aos anos 2000, quando a cassete deixou de ter influência”, explica o proprietário, de 48 anos, ao Expresso.

Depois do declínio, uma brincadeira tornou-se séria

Longe vão os tempos em que a Edisco tinha a sorte de produzir as cassetes de Nel Monteiro, um fenómeno de vendas, com “Azar na Praia” a ecoar nas rádios e nas festas populares. Para trás ficaram também os sucessos de Dino Meira gravados em fita ou o “Adeus Transmontana”, de Rui do Cabo. Apesar da aparente falência do analógico, a sorte desta empresa foi mesmo o facto de toda a maquinaria necessária para a produção ter sido preservada.

“Quando o digital surgiu com toda a força, o negócio quase se desvaneceu, até que, quase por brincadeira, entrou aqui alguém a pedir-nos um trabalho em cassete”, recorda Armando. As máquinas foram novamente montadas em 2005 e os clientes não paráram de se multiplicar ao longo destes 12 anos. “A cassete voltou a ser o motor da empresa”, assegura o proprietário.

Os números comprovam. As edições são reduzidas, normalmente de 100 ou 200 exemplares, mas os pedidos não páram de chegar. Em 2016, a produção duplicou, atingindo a fasquia de 40 mil cópias produzidas. Este ano, esse número já foi alcançado e Armando mostra-se confiante num crescimento anual a rondar os 50%. As bandas de metal são as mais ávidas de pequenas edições em cassete, mas também há clientes associados a vários outros géneros de música alternativa e independente, como o punk dos Pepsicolos, o pós-industrial dos britânicos Death in June, a música experimental ou o “noise”.

A cassete não tem os dias contados

A rapidez no fabrico (entre 4 e 6 dias) e o “atendimento personalizado” são dois elementos-chave para o atual sucesso da Edisco, com encomendas regulares em França e Espanha, mas com capacidade de chegar até latitudes menos convencionais, como a Islândia, a Suécia, o Brasil, o México e a Austrália. Em Portugal, bandas já firmadas no panorama “indie” apostam – ou já apostaram – também neste suporte analógico, caso dos Sensible Soccers, Conjunto Corona, The Sunflowers ou Capitão Fausto (que editou o mais recente álbum, “Capitão Fausto Têm Os Dias Contados”, também em cassete).

“É sujo, funciona e não falha”

Os Conjunto Corona são um duo de hip-hop português, constituído por dB (David Bruno) e Logos, mas com influências de psicadelismo e uma atitude muito punk presente na filosofia criativa. Em declarações ao Expresso, David Bruno fala com entusiasmo deste formato associado ao espírito Do It Yoursel (DIY).

“Tem a ver com o nosso estilo de música, feita até hoje em casa e a que chamamos Lo Fi Hipster Sheat. “A cassete é o meio ideal para este tipo de música”, explica David, para quem as gravações em fita têm um “grande valor sentimental”. “O próprio ruído faz parte da beleza. O vinil tem uma imagem associada à excelência, mas nem todos os artistas gostam de ter essa imagem associada à sua música”, frisa dB. “A cassete acaba por premiar todos aqueles que querem criar e não têm muitos meios. É sujo, funciona e não falha”, complementa o integrante dos Conjunto Corona.

Por sua vez, os Sensible Soccers apresentam melodias mais delicadas, onde remanescências da música ambiental, do kautrock e a beleza da pop se encontram em paisagens sonoras introspetivas, como acontece no mais recente álbum, “Villa Soledade”. Este trio, composto por Manuel Justo, Filipe Azevedo e Hugo Alfredo Gomes – e com nome inspirado num popular videojogo dos anos 1990 – também se rendeu às cassetes, quando editou o primeiro EP e, em 2014, quando lançou o primeiro álbum “8” (disponível com quatro capas diferentes).

“Havia um certo lado fetichista e a procura por parte do público foi curta, mas intensa”, descreve Hugo Alfredo em conversa com o Expresso. “O primeiro material gravado por nós tinha uma qualidade mais baixa, precisávamos que nos emprestassem algumas coisas e gravávamos com péssimas condições. Tínhamos uma placa de som e pouco mais”, recorda. “Depois, para o “8”, a situação melhorou, mas mesmo assim aquilo que fica é um som rapado, que acaba por casar bem com a textura e a saturação fornecidas pela cassete”, explica Hugo, que até há seis meses preservava o hábito de as gravar para as ouvir no carro e que nunca mais se esquece das viagens de automóvel com o pai, a ouvir naquele formato medleys infindáveis com os grandes sucessos dos anos 1960 e 1970.

“Somos três rapazes nascidos na década de 1980 e ouvimos muita música em cassete. Convivemos também com um Portugal mais interior que tinha um expositor de cassetes em todos os cafés”, acrescenta o elemento da banda com “quartel-general” na pacata e recôndita freguesia de Fornelo, em Vila do Conde.

O cliente tem sempre razão

Na Edisco, o cliente tem sempre razão, por mais estranho que seja o pedido. “Eu até posso advertir que letras vermelhas numa cassete preta não irão permitir uma leitura muito fácil, mas os clientes já trazem ideias muito formadas e dizem-me: ‘não há problema, é mesmo isso que eu quero’. E fica resolvido o problema”, afirma Armando Cerqueira.

Atualmente, as cassetes são, sobretudo, um produto colecionável e o empresário explica que um exemplar com um custo de produção médio de 2 euros pode atingir os 80 euros quando vendido na internet.

Para os millenials, trata-se igualmente da descoberta de um admirável mundo novo. “Penso que os mais jovens começaram a redescobrir o formato físico, até porque, quando olham para trás, não têm nada que os posicione ao longo da vida”, acrescenta Armando.

Por isso, se por um destes dias vir o seu filho com um ‘walkman’ ou uma cassete e uma caneta nas mãos, não estranhe. Porque a modernidade é feita pela capacidade que temos de nos lembrar.

(Artigo publicado originalmente no site do Expresso a 26 de agosto de 2017)